O submundo da cana
Estado que detém 60% da produção nacional de cana-de-açúcar, São
Paulo não divide a riqueza derivada do boom de etanol com seus 135 mil
cortadores, que vivem muitas vezes em situações precárias
MÁRIO MAGALHÃES
JOEL SILVA
ENVIADOS ESPECIAIS AO INTERIOR DE SP
Pontualmente às 4h42, a canavieira Ilma Francisca de Souza parte para o
trabalho com sua marmita fornida de
arroz coberto por uma lingüiça cortadinha. Em outro bairro de Serrana,
ainda antes de o sol nascer, Rosimira Lopes sai
para o canavial levando arroz com um só acompanhamento: feijão.
Durante o dia, elas vão dar conta da comida, que já terá esfriado. A
despeito do notável progresso que ergue usinas de etanol com tecnologia
assombrosa, o Brasil segue sem servir refeições quentes aos lavradores
da cana-de-açúcar.
A bóia continua fria.
Durante dois meses, a Folha investigou as
condições de vida e trabalho dos cortadores de
cana no Estado que detém 60% da produção do
país que é o principal produtor do planeta.
Gente como Ilma e Rosimira.
Em uma das etapas de apuração da reportagem, por 15 dias percorreram-se
3.810 quilômetros de carro, o equivalente a nove trajetos São Paulo-Rio
de Janeiro. Um mapa [veja na pág. 6] mostra onde ficam as cidades
visitadas.
Pela primeira vez em cinco séculos, desde que
as mudas pioneiras foram trazidas pelos portugueses, em 2008 ao menos metade da cana de
São Paulo não será colhida por mãos, mas por
máquinas. É o que anunciam os usineiros.
Como na virada do século 16 para o 17, quando o país era o líder do
fabrico de açúcar, a cana oferece imensas oportunidades ao Brasil, em
torno do álcool combustível do qual ela é matéria-prima. O etanol pode
se transformar em commodity, com cotação no mercado internacional. As
usinas geram energia elétrica.
A riqueza do setor sucroalcooleiro, que movimentará neste ano R$ 40
bilhões, não atingiu os lavradores. Em 1985, um cortador em São Paulo
ganhava em média R$ 32,70 por dia (valor atualizado). Em 2007, recebeu
R$ 28,90. A remuneração caiu, mas as exigências no trabalho aumentaram.
Em 1985, o trabalhador cortava 5 toneladas diárias de cana. Na safra
atual, 9,3.
Em 19 cidades do interior -na capital foi ouvido um representante dos
empresários- , os repórteres procuraram entender por que, entre nove
culturas agrícolas, a da cana reúne os trabalhadores mais jovens.
Exige alto esforço físico uma atividade em que é preciso dar 3.792
golpes com o facão e fazer 3.994 flexões de coluna para colher 11,5
toneladas no dia. Nos últimos anos, mortes de canavieiros foram
associadas ao excesso de trabalho.
Conta-se a seguir o caso de um bóia-fria que
morreu semanas após colher 16,5 toneladas. Não
há paralelo em qualquer região com tamanho
rendimento.
Na estrada, flagraram-se ônibus deteriorados,
ausência de equipamentos de segurança no campo, moradias sem higiene e pagamento de salário inferior ao mínimo.
Conheceram-se comunidades de canavieiros
que dependem do Bolsa Família, migrantes que
tentam a sorte e lavradores que querem se livrar
do crack e de outras drogas.
Descobriram-se documentos que comprovam
a existência de fraudes no peso da cana, lesando
os lavradores.
Escravidão
No auge e na decadência do ciclo da cana-de-açúcar, os escravos
cuidaram da lavoura e puseram os engenhos para funcionar. A arrancada
do etanol brasileiro foi dada por lavradores na maioria negros.
Assim como os escravos sumiram de certa historiografia, os cortadores
são uma espécie invisível nas publicações do setor. Exibem-se usinas
high-tech, mas oculta-se a mão-de-obra da roça.
Impressiona na viagem ao mundo e ao submundo da cana a semelhança de
símbolos da lavoura atual com a era pré-Abolição. O fiscal das usinas é
chamado de feitor.
Acumulam-se denúncias de trabalho escravo. É um erro supor que as
acusações de degradação passem longe do Estado mais rico do país e se
limitem ao "Brasil profundo". Uma delas é narrada adiante. Em São
Paulo, localiza-se Ribeirão Preto, centro canavieiro tratado como a
nossa "Califórnia".
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem minimizado os relatos sobre
trabalho penoso nos canaviais. No ano passado, ele disse que os
usineiros "estão virando heróis nacionais e mundiais porque todo mundo
está de olho no álcool".
O medo de retaliações é grande entre os canavieiros. Nenhum nome foi mudado nos textos,
mas algumas pessoas, a pedido, são identificadas
apenas pelo prenome ou nem isso. As entrevistas
foram gravadas com consentimento.
São muitos esses anti-heróis: segundo os usineiros, há 335 mil cortadores de cana no Brasil,
incluindo os 135 mil de São Paulo. No Estado,
prevê-se a extinção do corte manual para 2015,
junto com as queimadas que facilitam a colheita.
Ilma e Rosimira compõem uma espécie em extinção. Por meio milênio, os cortadores, escravos
ou assalariados, viveram tempos difíceis. Nos
próximos anos, não será diferente: com baixa
qualificação, eles terão de procurar outros meios
de sobrevivência.
Não há sindicato que não constate queda nas
contratações.
O canavial não está tão longe quanto parece: ao
encher o tanque com 49 litros de álcool, consome-se uma tonelada de cana; quando se adoça
com açúcar o café da manhã, milhares de brasileiros já estão na lavoura de facão na mão.
A morte cansada
Com produção em alta e salários em queda, excesso de trabalho ronda canaviais
Joel Silva/Folha Imagem
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Cortador de cana trabalha em canavial em Charqueada |
DOS ENVIADOS AO INTERIOR DE SP Dinheiro chama dinheiro, como dizem,
então pobreza chama
pobreza -e tragédia
agoura tragédia. Procurada em Guariba para conversar sobre o marido, morto
após passar mal no canavial em
2005, Maildes de Araújo se põe
a falar do morto de duas semanas antes: o cunhado, também
cortador de cana.
José Pindobeira Santos tinha
65 anos. Colheu cana até o ano
retrasado. "Ele reclamava da
barriga, de cólicas", diz a filha
Ivanir, faxineira. Voltava da lavoura com dor na virilha. Nunca se tratou ou foi tratado.
Pindobeira morreu de obstrução intestinal e broncoaspiração. Não se sabe até que ponto a lida na roça baqueou sua
saúde. Nos anos 1960 já cortava
cana nos arredores de Guariba.
Seu concunhado Antonio Ribeiro Lopes, o marido da baiana Maildes, veio ao mundo em
julho de 1950, três dias antes
do fracasso supremo do futebol
pátrio, a final da Copa. Migrou
de Berilo (MG), município da
paupérrima região do Vale do
Jequitinhonha.
Em acidentes registrados -a
subnotificação é considerável-, o facão rasgou-lhe perna
e joelho. Dores no ombro direito o afastaram da roça. Penava
com dor de cabeça. O empenho
no trabalho desencadeava cãibras na barriga, nas pernas e
nos braços. Sofria da doença de
Chagas, mas não o licenciaram.
Era funcionário da usina
Moreno. Sucumbiu no campo e
o levaram para o hospital. Causa da morte: "cardiopatia chagásica descompensada".
Lopes integra a relação de
duas dezenas de canavieiros
mortos no interior paulista de
2004 a 2007, o caçula com 20
anos. A lista foi elaborada pela
Pastoral do Migrante -há mais
mortes, não contabilizadas.
Dela não constam acidentes
de trabalho -em 2005, de cada
mil trabalhadores no cultivo da
cana, 48 sofreram acidente
ocupacional, registraram as
pesquisadoras da USP Márcia
Azanha Ferraz Dias de Moraes
e Andrea R. Ferro.
Naquele ano, segundo o Ministério do Trabalho, morreram de acidentes 84
pessoas no setor sucroalcooleiro, incluindo lavoura e indústria (3,1%
das mortes por acidentes de trabalho no Brasil). O Ministério Público
do Trabalho investiga a razão dos óbitos e sua associação com o caráter
exaustivo do corte manual.
Relatório de 2006 da Secretaria de Inspeção do Ministério
do Trabalho enumera dezenas
de irregularidades em empresas nas quais trabalhavam os
lavradores que morreram.
Uma é o não-cumprimento
do descanso de uma hora para
o almoço. Os cortadores comem em dez, 20 minutos, para
logo empunhar de novo o facão. Eles ganham por produção. Nenhum laudo atesta que
a atividade foi decisiva para os
óbitos. Seria difícil: dos oito esquadrinhados pelo ministério,
só em dois houve necropsia.
O texto da Secretaria de Inspeção afirma: "As causas de
mal súbito, parada cardiorrespiratória e AVC [acidente vascular cerebral], descritas nas
certidões de óbito, não são elementos de convicção que justifiquem a morte natural, como
alegam as empresas".
Há indícios sobre por que
morrem os canavieiros.
Em 1985, os cortadores do
Estado produziam em média 5
toneladas diárias de cana. Em
2008, são 9,3 toneladas, 86% a
mais. Há 23 anos, um lavrador
recebia R$ 6,55 por tonelada e
R$ 32,70 por jornada. Em
2007, 1.000 kg valeram R$
3,29. A remuneração por dia,
R$ 28,90 (menos 12%).
A produtividade disparou e o
salário caiu. Com a mecanização acelerada do corte e a expansão do desemprego, ficam
os mais eficientes. O homem
compete com a colheitadeira.
Os números de 1985 e 2007
são do Instituto de Economia
Agrícola. Atualizados para
reais de agosto de 2007, encontram-se em artigo dos pesquisadores Rodolfo Hoffmann
(Unicamp) e Fabíola C.R. de
Oliveira (USP).
"Penoso" e "desumano"
José Mário Gomes morreu
em 2005 aos 44 anos. Era empregado da usina Santa Helena,
do grupo Cosan, líder da produção de cana no planeta. "O óbito
ocorreu nos períodos de maior
produtividade, com picos alternados", informa o Ministério
do Trabalho.
Valdecy de Lima trabalhava
na usina Moreno, como Antonio Ribeiro Lopes. Em 7 de julho de 2005, desabou na roça.
Morreu aos 38 anos, de acidente vascular cerebral. Em 17 de
junho, decepara 16,5 toneladas.
A Moreno alega que as mortes de Antonio e Valdecy "não
ocorreram em decorrência do
esforço do trabalho". A Cosan
diz que as causas do óbito de
José Mário "ainda estão sendo
investigadas pelos órgãos competentes. A empresa prestou
todos os atendimentos necessários e colocou seu departamento de serviço social à disposição da família do colaborador.
A Cosan cumpre rigorosamente a legislação trabalhista".
O Ministério Público do Trabalho relaciona as mortes à rotina "penosa" e "desumana" e
prepara ação contra o pagamento por produção, quando o
grosso da remuneração depende do desempenho. É preciso
acumular em oito meses, a duração da safra, o suficiente para
12 -a maioria é dispensada na
entressafra.
Usineiros e segmento expressivo dos trabalhadores desejam manter o sistema.
O afinco para cortar mais e
mais provoca situações como
uma acontecida em 2007. Sob o
sol, em dia de temperatura máxima de 37ºC à sombra, nove
trabalhadores foram hospitalizados após se sentirem mal em
uma fazenda de Ibirarema.
Reclamavam de cãibras e vomitavam. Algumas usinas fornecem no campo bebidas reidratantes para a mão-de-obra
suportar o desgaste.
Em áreas de corte manual, os
canaviais costumam ser queimados antes da colheita. O fogo
queima a palha da cana, e restam apenas as varas, o que facilita o trabalho. Quando o facão
golpeia as varas com fuligem, o
pó se espalha, entra pelo nariz e
gruda na pele. A plantação recebe agrotóxicos. O lavrador
não costuma receber máscara.
Em tese de doutorado na
Unesp, a bióloga Rosa Bosso
constatou que o nível de HPAs,
substâncias cancerígenas, expelidos na urina de quatro dezenas de trabalhadores era nove vezes maior na safra do que
na entressafra.
Em temporada sem colheita,
Antonio Lopes sobreviveu como carregador de sacas de açúcar. Maildes o conheceu na lavoura da cana, onde o namoro
engatou. Ainda hoje a viúva se
orgulha: "Ele não era de enjeitar serviço".
Filhos da cesta básica
Estudos divergem quanto ao aumento do IDH em regiões canavieiras
DOS ENVIADOS AO INTERIOR DE SP
Maria Vanilda Sabino diz que a
filha Vitória
tem uma boneca. A menina de
quatro anos, porém, não sabe
onde ela está.
Maria mora com o marido
nos fundos de uma casa. Cortador de cana, com carteira assinada por usina, Antônio é analfabeto como a mulher.
Com o casal dormem três filhas no quarto. Na cozinha,
diante do fogão, dois filhos.
Não há geladeira. O terceiro cômodo é um banheiro. Os três
rebentos maiores estão no
Nordeste -são oito no total.
A alagoana Maria chegou a
Serrana no ano passado. O peso
de duas meninas caiu para o nível de desnutrição. Engordaram graças a leite e cesta básica
doados pela prefeitura. Em junho, como sempre, Maria recebeu R$ 112 do Bolsa Família.
Em mês recente, Antônio ganhou R$ 487 líquidos. Só de
aluguel se foram R$ 140. Sua
renda é a única do lar.
Artigo inédito dos economistas Francisco Alves (UFSCar) e
Marcelo Paixão (UFRJ) analisou 71 municípios paulistas
que tinham mais de 40% de superfície total ocupada com cana na década de 1990.
Concluiu que nessas cidades
a renda é maior, porém apenas
sete alcançavam em 2000 IDH
(Índice de Desenvolvimento
Humano, que contempla também saúde e educação) maior
que a média do Estado. Só 13
superavam o IDH médio de
suas microrregiões. E em 43 a
desigualdade ultrapassava a
das microrregiões.
Também com base em dados
do IBGE de 2000, os professores da USP Alceu Salles Camargo Júnior e Rudinei Toneto Júnior chegaram a constatações
opostas.
Pesquisa da dupla sustenta
que os municípios com pelo
menos 28,8% de cana-de-açúcar plantada, no conjunto da
área da lavoura (não da superfície total), têm IDH maior que
os sem esse perfil agrícola.
Em sentido contrário, estudo
do presidente do Ipea, Marcio
Pochmann, afirma que 81% das
famílias dos trabalhadores do
setor sucroalcooleiro de SP
(agricultura e indústria) tiveram em 2005 rendimento de
até dois mínimos.
"É o público do Bolsa Família, de renda equivalente", diz
Pochmann.
Operário-padrão
Após começar a trabalhar aos 13 anos, ex-campeão de corte está hoje, aos 35, com uma hérnia
e a coluna "travada"
DOS ENVIADOS AO INTERIOR DE SP
Valdecir da Silva
Reis, o graveto que
consome seus dias
deitado na cama a
ver TV, já foi um
campeão. Não tinha para ninguém. Na lavoura, batia recorde em cima de recorde.
Em 20 de março de 2006, colheu 21 toneladas. Em 17 de
maio, 28. Oito dias depois, rasgou 560 metros lineares de
plantação, cortando cinco linhas de cana para receber por
uma -é o critério legal. A rigor,
derrubou 2,8 km lineares.
O contracheque da empresa
Meia Lua imprime a marca da
jornada: 52,47 toneladas. Quase uma tonelada por quilo de
gente -ele pesava 56 kg. Hoje
diz ter 49 kg. Parece menos.
O cortador que arrancava
suspiros dos colegas incrédulos
definha na casa onde vive de favor em Engenheiro Coelho.
Na roça, não sentia dores.
Em 2006, a coluna "travou" e
ele não retornou ao canavial.
Aos 35 anos, sonha com o dia
de voltar ao trabalho em que se
tornou o herói dos amigos.
Por maior que seja a vontade,
ele desconfia de que não empunhará o facão novamente. Os
exames diagnosticaram problemas na coluna lombar, hérnia de esôfago e desequilíbrios
nos indicadores de urina.
Valdecir se queixa de dores
de cabeça, na barriga, no peito
(não fez avaliação cardíaca), no
saco escrotal, no ombro direito,
nos braços, joelhos e pernas; de
falta de força para levantar
uma garrafa d'água; de cansaço
após caminhar 800 metros; de
ouvir mal por um ouvido.
O lado esquerdo do tórax é
mais desenvolvido; com o braço esquerdo ele atirava a cana
na leira, o corredor aberto na
terra onde fica a cana colhida.
Segunda divisão
Ainda que o farrapo humano
que fala baixinho e sem fôlego
sobre seu infortúnio fosse criação de um magistral ator stanislavskiano, ultra-realista,
nem assim seria possível bolar
uma história com princípio,
meio e fim como a dele -os repórteres escarafuncharam o
caso com base em fartura de
documentos e depoimentos.
Valdecir começou a cortar
cana aos 13 anos. Empresas
premiavam seus feitos com bicicleta e aparelho de som.
Após "travar" em 2006, obteve auxílio-doença da Previdência. Na perícia
de 5 de maio passado, no entanto, foi considerado apto para o trabalho.
Sua renda é zero.
Mora com uma filha de casamento anterior e a mulher, Helena. Ela ganha R$ 30 por faxina. Faz duas por semana.
O trabalho para o qual o INSS
não identifica "problema grave" para Valdecir exercer "não
se pode comparar ao de um escriturário", diz um executivo
de usina. Anunciam-se vagas
para escriturário com 30 a 40
horas de carga semanal. Em período idêntico, o cortador de
cana em SP trabalha, no papel,
44 horas, em seis dias.
De escriturários e cortadores
se exigem 35 anos de serviço
para se aposentar. A maioria
desses, contudo, é safrista: trabalha oito meses por ano na atividade. Não soma 12 meses de
contribuição.
O desempenho de alguns é
tão exuberante que os célebres
campeões cubanos das campanhas de corte de cana aqui pegariam segunda divisão. Em
1965, Fidel Castro condecorou
cinco deles, de marcas de 14 a
19,7 toneladas. Na Meia Lua,
ex-empregadora de Valdecir,
um cortador bateu 35 toneladas em 20 de junho. Os repórteres tentaram falar com a empresa, mas não encontraram
seus endereço e telefone.
Os campeões, como são chamados na lavoura os de melhor
performance, costumam ser
magros e fortes. Valdecir tem
1,65 m de altura.
Samuel Gomes, 38, é um dos
recordistas de Guariba. Mede
1,85 m. Barack Obama, 1,86 m.
O peso do senador americano é
estimado em 77 kg a 82 kg. Samuel, que tem 68 kg, conta ter
cortado neste ano 27 toneladas
em um dia na usina São Carlos.
Com tanta exigência física,
há nove homens (92%) por mulher na lavoura canavieira do
Brasil. Em nove culturas relevantes, os trabalhadores de menor média etária são os da cana,
35,5 anos -dados compilados
pelos pesquisadores Rodolfo
Hoffmann (Unicamp) e Fabíola C.R. Oliveira (USP).
Rotina
Ônibus das empresas apanham os cortadores em casa
entre 5h e 6h. No campo, a jornada inicia às 7h. Muitos "almoçam" antes de começar a colheita. Há direito a intervalos
de dez minutos, de manhã e à
tarde. Pelas 10h ou 11h, reserva-se uma hora para almoço
-poucos cumprem todo o tempo. O serviço termina às 15h ou
16h, mas há excessos. Os trabalhadores chegam às suas casas
entre as 17h e as 19h. Dormem
pelas 20h, 21h, para acordar entre as 3h30 e as 4h30.
Pesquisa de análise ergonômica em fase de conclusão, financiada pela
Fapesp e coordenada pelos pesquisadores Rodolfo Vilela e Erivelton de
Laat, descreve os movimentos dos cortadores.
Um deles, que colheu 11,5 toneladas, deu em um dia 3.792
golpes com o facão e fez 3.994
flexões de coluna. O facão pesa
600 gramas. Golpeia-se a cana
no pé, onde se concentra a sacarose. O cortador destro abraça
o feixe de cerca de dez canas
com o braço esquerdo (ou, vara
por vara, com a mão), curva-se
e golpeia com o braço direito.
Com o esquerdo, atira a cana na
leira, de onde a máquina carregadeira a leva.
Em um grupo, a freqüência
cardíaca média em repouso era
de 57,4 batimentos por minuto.
No trabalho, de 112, variação
exagerada, conforme os pesquisadores (a diferença deveria
se limitar a 35).
A atividade dos lavradores é
comparada à de maratonistas,
com repetição fatigante de movimentos. Maria Zeferina Baldaia, campeã da Maratona de
São Paulo em 2008, foi cortadora de cana no interior. "Uma
coisa tem muito a ver com a outra", confirma.
Sindicatos de empregados
pedem a redução da carga semanal para 40 horas, com dois
dias de descanso. Cristina Gonzaga, pesquisadora da Fundacentro, fundação de pesquisas
do Ministério do Trabalho, defende 30 horas, com cinco jornadas de seis horas por semana.
As empresas rejeitam as reivindicações.
É essa vida que Valdecir fantasia retomar. Ele se esconde
em casa. "As pessoas vêem a
gente na rua e falam que é vagabundo. Não vêem o que a gente
tem por dentro, o que a gente
sente."
Crack, cachaça e maconha mascaram esforço e dor
DOS ENVIADOS AO INTERIOR DE SP
O
primeiro fumava
maconha na colheita da cana porque
"ficava com o corpo mais leve. Dava vontade de trabalhar". O segundo escondia
cachaça em sua mochila.
"Quanto mais eu bebia,
mais tinha energia. Eu me
sentia forte."
O terceiro "ia embora"
com maconha ou crack,
subproduto barato da cocaína ainda mais destrutivo
e capaz de criar dependência. "Quando usava, ninguém me segurava. Cortei
21 toneladas em um dia."
Na Casa do Caminho, um
centro de recuperação de
dependentes químicos em
Barrinha, na maioria trabalhadores do cultivo da cana,
eles tentam voltar à tona.
O primeiro trocou a maconha pelo crack. "Na roça, vinha a sensação de
ser perseguido, eu ficava com medo, via revólver, dava vontade de
atirar em mim mesmo. Não trabalhava. Comecei a perder o serviço."
O segundo foi do fermentado de cana-de-açúcar para o crack. Se fumava a droga, misturada com fumo,
faltava ao trabalho. "No
crack, o fim é o cemitério,
uma cadeira de rodas ou a
cadeia." O terceiro "ficava
louco e continuava trabalhando. Viajava no serviço.
Gritava e zoava a cabeça dos
meninos. Cantava reggae".
Seu plano para quando sair:
cortar cana.
Não se conhecem estatísticas de consumo de drogas
ilícitas nos canaviais ou o
índice específico de internação de cortadores. O fato
novo é a disseminação no
interior de São Paulo de clínicas de recuperação de trabalhadores da cana. Contam-se ao menos dez.
Os depoimentos dos lavradores associam o consumo de drogas à impressão
inicial de superação dos limites físicos. Na largada,
elas parecem ajudar. Depois, debilitam.
A Casa do Caminho abriga 40 internos. Seu presidente, Arnaldo Garcia, afirma que as fontes de financiamento são diversas. As
usinas contribuem com
açúcar e lenha.
Salário no olhômetro
Cálculos complexos e fraudes no peso lesam trabalhadores analfabetos ou semi-alfabetizados
DOS ENVIADOS AO INTERIOR DE SP
O
trabalho na colheita da cana-de-açúcar vale quanto
pesa a cana cortada. Pelo menos deveria valer.
Documentos obtidos em
duas regiões de São Paulo indicam que uma desconfiança atávica dos trabalhadores não se
trata de paranóia: fraudes -ou
erros- provocam o pagamento
abaixo do previsto nos acordos
com as empresas.
A remuneração dos cortadores é uma equação complicada
mesmo para quem tem formação superior. Para a esmagadora maioria dos lavradores, é
ainda pior: na média, eles não
completaram nem a quarta série do ensino fundamental.
Anualmente, empresários e
sindicatos de assalariados definem quanto vale a tonelada colhida. As cifras variam de acordo com o tipo da cana.
Embora o pagamento seja
por peso, o desempenho dos
cortadores é aferido por distância. Usinas e fornecedores
de cana fixam o peso existente
por metro colhido. O peso depende de altura, espessura e
outras características da cana.
Multiplicam-se os metros
colhidos pelo peso de 1 metro.
O resultado é o peso da cana
cortada. Este é multiplicado
pelo valor da tonelada, determinando o ganho do dia.
Às vezes as contas não fecham. O trabalhador rural
Adelfo da Costa Machado cortou 132 metros lineares de cana
na quinta-feira 12 de junho.
A Indústria e Comércio Iracema Ltda., proprietária da
destilaria Iracema, de Itaí (SP),
pagou-lhe R$ 0,20 por metro. A
jornada deu direito a R$ 26,40.
Daquele tipo de cana, uma
tonelada valia R$ 2,7462.
Os demonstrativos da balança da Iracema revelam que na
roça onde Machado trabalhou
o rendimento por hectare foi
de 138 toneladas. O desembolso pela mão-de-obra seria de
R$ 379 por hectare (área pouco
menor que o campo de futebol
de dimensões máximas).
Com o espaçamento de 1,4
metro entre as fileiras de cana
(ruas, como se diz na lavoura
paulista), em um hectare há
7.140 metros lineares plantados. O lavrador tem de cortar
um metro de cinco ruas -5
metros, portanto- para que se
compute um metro na sua produção.
Cada cortador deveria receber R$ 0,2653 por metro -33%
a mais do que foi pago. Em vez
de R$ 26,40, Adelfo Machado
tinha direito a R$ 35,02 pelas
12,8 toneladas que abateu.
Deu para entender?
Imagine os cortadores.
Para fazer o cálculo, precisou-se cotejar a "planilha de
ponto de produção", preenchida no canavial por um fiscal da
empresa, com o contracheque
do empregado e um documento da firma assinalando as toneladas por hectare.
Foi o procurador do Trabalho José Fernando Maturana,
de Bauru, quem garimpou e
cruzou as informações.
Em um documento co-assinado com o procurador, um
funcionário da Iracema reconheceu que no "talhão 35" o
rendimento foi de 138 toneladas por hectare. Talhão é uma
subdivisão, de dimensões diversas, da área do canavial.
Na terça, outro executivo da
Iracema afirmou que estava errada a tabela da empresa. Por
engano, computaram-se 138
toneladas, mas "a produção por
hectare foi menor". Os trabalhadores teriam recebido corretamente.
Instrumento primitivo
Ao contrário do vendedor
consciente dos sapatos que
vendeu, o lavrador ignora as toneladas que colheu. Com a balança nas usinas, longe da roça,
ele só sabe depois. Na lavoura, o
terreno cortado é medido por
um instrumento primitivo: um
compasso de madeira, com
pontas de ferro e raio de 2 metros. O fiscal caminha girando o
compasso gigante.
"Enquanto as usinas utilizam modernos sistemas de monitoramento por GPS
para projetar a colheita, os trabalhadores são remunerados no
"olhômetro", acusa o Ministério Público do Trabalho.
Indagado sobre as toneladas
que corta e o valor do metro,
um canavieiro respondeu, em
Pederneiras, como os colegas:
"Não sei".
Nas greves de 1984 a 86, os
cortadores reivindicaram sem
sucesso o pagamento por metro, e não por peso. "O trabalhador sempre foi roubado", acusa
José de Fátima Soares, líder
das antigas mobilizações em
Guariba. Zé de Fátima aderiu
ao petismo e ao trotskismo e
trocou-os pelo malufismo. Hoje é do PPS.
O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cosmópolis acionou o Ministério do Trabalho
em 2005. Com base em anotações da performance em metros no canavial e da pesagem
nas usinas, descortinaram-se
diferenças entre cana colhida e
pesada. Em 4 de agosto daquele
ano, a empresa A.P. de Freitas
Neto fixou a relação de 30 kg
por metro. A cana se destinava
à usina São José. Na balança, o
metro pulou para 49 kg.
Em 1998, greve em Cosmópolis conquistou um sistema
pioneiro para conferir a produção: na usina de Cosmópolis, a
Ester, três funcionários do sindicato se revezam 24 horas na
sala de operação da balança.
Eles monitoram, caminhão
por caminhão, as toneladas que
os computadores da empresa
registram.
O controle da produção, com
sindicalistas conferindo o peso,
só existe lá. Nas grandes usinas,
o método é o do caminhão-campeão. Selecionam-se três
amostras do canavial, pesa-se e
define-se o valor do metro. O
cortador não testemunha a pesagem. Certas empresas nem
esse recurso empregam.
"Por que, no Brasil, só uma
usina faz o controle da produção?", pergunta Carlita da Costa, presidente do sindicato de
Cosmópolis. "Para mim, há
fraudes [em outras usinas]."
A União da Indústria de Cana-de-Açúcar afirma que há
um esforço com a Federação
dos Empregados Rurais Assalariados de SP para assegurar
"transparência e confiabilidade" e "apurar se aquilo que se
está produzindo se está recebendo". Patrões e empregados
não sabem de punição criminal
por manipulação de peso. A
usina São José foi procurada,
mas não se pronunciou. A Freitas Neto não foi encontrada.
O contador Fábio Urrea, contratador de mão-de-obra, disse
em Agudos que, "se o cara for
sério", é difícil fraudar o peso.
"E existe quem não seja sério
nesse meio?", ouviu dos repórteres. Urrea sorriu: "É duro falar. Complicado".
Terceirização freia aplicação de medidas de segurança
DOS ENVIADOS AO INTERIOR DE SP
A
edição de março de
2007 do jornal
"Contato", da usina
Nova América, divulgou
suas operações na lavoura,
por meio da Nova América
Agrícola: "Hoje 100% do
plantio manual, incluindo
os terceiros, já conta com o
cinto de segurança". No
mesmo mês, uma blitz do
Grupo Móvel de Fiscalização Rural visitou uma fazenda em Maracaí (SP).
Flagrou funcionários da
Nova América em cima de
um caminhão, a mais de 2
metros de altura, jogando
cana para ser plantada por
quem seguia no chão.
O pessoal sobre o veículo
não usava cinto. A empresa
comprometeu-se a assegurar equipamento a todos.
A realidade da roça nem
sempre corresponde 100%
à propaganda das usinas de
etanol. No mês passado, o
presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar,
Marcos Jank, participou da
Mesa de Diálogo com governo e sindicalistas para
tratar do trabalho na cana.
Jank afirmou, segundo a
Agência Brasil: "Já 100%
das usinas não estão terceirizando o corte da cana,
mas ainda há problemas
nos fornecedores de cana
em São Paulo". Três semanas depois, o procurador do
Trabalho Silvio Beltramelli
Neto acusou a usina Santo
Antônio de terceirizar ilegalmente a produção de cana.
A Justiça determinou em
liminar que a usina "abstenha-se de contratar terceiros". A Santo Antônio diz
"não ter trabalhadores terceirizados".
A Cooperativa dos Plantadores de Cana da Zona de
Guariba promoveu campanha com seus funcionários
para prevenir câncer. No
canavial, quase 100% dos
cortadores não recebem
protetor solar para evitar o
câncer de pele.
Riqueza e senzala
Estado mais rico do país tem casos de trabalho escravo; procurador fala em "apartheid" nos canaviais
DOS ENVIADOS AO INTERIOR DE SP
Q
uando os fiscais do
Ministério do Trabalho e os procuradores do Ministério Público do
Trabalho partem para diligências nos canaviais, as chances
de encontrarem irregularidades equivalem às dos clientes
dos serviços de "pesque-pague"
disseminados pelo interior
paulista fisgarem tilápias sem
dificuldades: nos lagos, há profusão de cardumes; no campo,
as condições de trabalho dos
cortadores estão longe de cumprir plenamente a lei.
Mesmo sem os instrumentos
legais de investigação à disposição dos servidores públicos, os
repórteres não passaram por
lavoura onde não houvesse infrações.
Em Taiaçu, os trabalhadores
saíram para a roça de madrugada, em ônibus com luzes dianteiras e traseiras queimadas.
Em Serra Azul, não havia
água gelada, banheiros móveis,
área coberta para as refeições e
muitos canavieiros não usavam
alguns EPIs (equipamentos de
proteção individual).
Em Pederneiras, uma lavradora estava com luva cirúrgica
de borracha, não de couro com
reforço metálico, como determina a norma de segurança.
Ela pegou as luvas emprestadas com uma amiga que atuou
como mata-mosquito na campanha de combate à dengue.
Uma das luvas foi cortada pelo facão na véspera, ferindo um
dedo (o acidente não foi registrado, o que contraria a legislação). As botinas com bicos metálicos de boa parte dos peões
estavam destruídas.
Em Limeira, também não se
viram alguns EPIs. Idem em
Piracicaba e Charqueada. Em
Dois Córregos e Guariba, cortadores vivem em pardieiros
sem conforto e limpeza -falta
até papel higiênico.
Em Agudos, em uma rescisão
contratual, um casal apresentou os contracheques comprovando remuneração inferior a
um salário mínimo mensal.
Marido e mulher ainda deviam
mais de R$ 100 cada um ao
contratador de mão-de-obra,
que retinha documentos dos
funcionários havia três meses.
Hoje são proibidos e ficaram
mesmo para trás os caminhões
que transportavam os bóias-frias da cana em São Paulo.
Mas perduram frotas de ônibus
deteriorados e inseguros, sem
autorização para rodar.
As empresas são obrigadas a
fornecer de graça equipamentos de segurança. Às vezes não
fornecem e às vezes cobram.
São pequenos inconvenientes, se comparados aos episódios de "redução a condição
análoga à de escravo".
O crime é tipificado pelo Código Penal. Ocorre quando se
submete alguém a "trabalhos
forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho,
quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em
razão de dívida contraída com
o empregador ou preposto". A
pena é de multa e reclusão de
dois a oito anos, além de sanção
correspondente à violência.
Resgates e libertações
Desde 1995, quando entrou
em ação, o Grupo Especial de
Fiscalização Móvel do Ministério do Trabalho "resgatou" -é
o verbo oficialmente empregado- 30.036 trabalhadores no
Brasil. As indenizações somam
R$ 42 milhões. São raras as
condenações judiciais.
O recorde foi batido no ano
passado, com 5.999 "libertações", outra expressão adotada
pelo governo. Neste ano, até junho, 2.269 pessoas foram encontradas em condições análogas à de escravo.
Fiscais e procuradores se
transformaram em uma espécie de caçadores de escravos ao
contrário -não para confiná-los, mas para livrá-los da desgraça. Em São Paulo, é comum
eles exigirem que empresas paguem a viagem de volta de migrantes contratados em seus
Estados para o corte de cana.
A maioria -3.117- dos libertados em 2007 no país trabalhava no setor sucroalcooleiro,
como a Folha informou em fevereiro passado.
Em Brasilândia (MS), na usina e na fazenda da Companhia
Brasileira de Açúcar e Álcool,
831 empregados indígenas foram descobertos em situação
qualificada como degradante.
Neste ano, 55 funcionários
de outra usina da CBAA foram
descritos pelo Ministério do
Trabalho como vítimas de servidão por dívida, o que configura trabalho escravo.
Ao contrário da maioria das
autuações, concentradas nas
regiões de expansão da fronteira agrícola no Norte e no Centro-Oeste do Brasil, esta aconteceu no Estado de São Paulo,
em Icém.
A companhia, do grupo J. Pessoa, nega responsabilidade por problemas.
Em seu site, afirma que "busca garantir sustentabilidade na produção e
relações responsáveis no crescimento, visando sempre a melhoria e a
qualidade de vida dos seus colaboradores e de seus familiares".
Empresas do grupo foram
excluídas do Pacto Nacional
pela Erradicação do Trabalho
Escravo, um programa de organizações que se comprometem
a não aceitar esse crime em sua
cadeia produtiva.
O procurador do Trabalho
Luís Henrique Rafael destacou
em ação civil pública o que considera abismo entre os componentes contemporâneos e arcaicos do negócio da cana e
seus derivados: "A tecnologia
de ponta que se observa nas
usinas contrasta com as "senzalas" nos canaviais, explicitando
bem o verdadeiro apartheid,
fruto da inescrupulosa equação
de distribuição das rendas geradas pelo tal "petróleo verde'".
A Organização Internacional
do Trabalho mantém no Brasil
o Projeto de Combate ao Trabalho Escravo.
O procurador Mário Antônio
Gomes coordena "inquérito-mãe" sobre o que chama de degradação do trabalho nos canaviais de São Paulo. Para ele, "o
nível de educação mais baixo
[dos cortadores] facilita a exploração".
O combate ao trabalho degradante é limitado pela escassez de recursos. Na região de
Ribeirão Preto, há dois procuradores para acompanhar 39
usinas. É pouco, mas, graças
(também) às ações de fiscalização, hoje está quase erradicado
um fenômeno do passado, o
trabalho infanto-juvenil no
corte da cana no Estado.
Filhos não reconhecem os pais
Cerca de 40% dos trabalhadores na colheita de cana-de-açúcar em SP são migrantes provisórios
DOS ENVIADOS AO INTERIOR DE SP
Houve um dia em
que Raimundo
Francisco foi contar a história da
sua vida aos seis
companheiros com quem divide uma casa no interior de São
Paulo. Nenhum ficou até o fim.
"Para não chorar", diz. Todos
são do Maranhão. Seis vieram
de Codó, um de Timbiras, municípios cujos índices sociais
fazem dos bairros pobres de SP
o melhor lugar do mundo.
Reginaldo trabalhava na roça própria. Fora da época da
colheita, "o pior do dia era chegar em casa e não ter o que comer". No fim do ano, ele reencontrava os amigos que desde
abril estavam para os lados do
sul colhendo cana. Apareciam
com "uma motinho, um som".
"Eu queria ter também."
Como os outros maranhenses que se apertam em dois cômodos. O mais novo tem 22
anos. O mais velho, 46. São casados, com quatro filhos na
média. Dois são alfabetizados.
Dizem ganhar de R$ 700 a
R$ 900 mensais brutos, mantêm contratos de safristas com
usinas -em novembro rumam
para o Maranhão. Sustentam-se longe de suas terras, mandam ajuda e persistem no sonho de não retornar de mãos
vazias. Falam dos filhos que
não os reconhecem na volta.
Dois garotos de Raimundo
choraram e fugiram ao vê-lo.
A União da Indústria da Cana-de-Açúcar estima que pelo
menos 54 mil cortadores de cana do Estado (40% da mão-de-obra) sejam migrantes provisórios. Deve haver mais, porque
muitos já são inscritos com
seus endereços paulistas. Milhares desembarcam em ônibus alugados por eles ou por
"gatos", os intermediários da
contratação para o corte.
Na leseira da folga semanal,
os colegas inventariam estragos. Edizon cortou um dedo
amolando o facão. Com dor na
coluna, Manoel não comparece
à lavoura há dois dias.
Pedem que não se diga em
que cidade moram, mas permitem a gravação da entrevista.
Sabem de quem arruma outra
família, "local". E de conhecidos que voltaram oito meses
depois e deram com a mulher
recém-barriguda. As moças
paulistas da vizinhança não estão nem aí para os cortadores.
Amigos lastimam que, no prostíbulo, a rameira menos cotada
cobre o equivalente a um dia e
meio de salário do trabalhador.
Lida subjetiva
Para entidade que representa produtores, mídia tende a generalizar maus exemplos pontuais
EM SÃO PAULO Na sala do décimo andar de
um edifício da avenida Brigadeiro Faria Lima, onde o diretor técnico da
União da Indústria da Cana-de-Açúcar concede entrevista em São Paulo,
as paredes estampam seis fotografias emolduradas. Três mostram
caminhões descarregando cana; duas focam outros ângulos de uma usina; e
uma descortina o canavial imponente -sem vivalma à vista.
Esse mundo o administrador de empresas Antonio de Padua Rodrigues, 56,
conhece bem. Aos oito anos, nas férias escolares, ele cortava cana no
interior. "Falar que é fácil é mentira", reconhece. Uma tia morreu na
mesma lida, picada por uma cobra cascavel.
Hoje o sobrinho dela, nascido em família modesta, é um
fabuloso banco de dados cerebral, uma das duas vozes mais
reconhecidas da entidade que
reúne usinas de São Paulo
-Estado produtor de 60% da
cana do país-, Mato Grosso do
Sul, Minas Gerais, Goiás e Espírito Santo. A outra face mais
visível da Unica (pronuncia-se
"única", proparoxítona) é a do
seu presidente, Marcos Jank.
Do que morrem os canavieiros? O corte de cana "não mata", afirma Padua. "Pode-se
morrer em qualquer situação,
local e hora." Na sua opinião, "o
serviço não leva à exaustão.
Ninguém é obrigado a cortar
cana ininterruptamente".
Movimentos como as flexões não causam problemas? Complicações com a
coluna "também tem quem trabalha em escritório diante do computador",
sustenta o executivo.
Mesmo assim, algumas companhias promovem ginástica
laboral para os funcionários no
campo, como comprovam imagens em publicações. Ao acompanhar turmas de empregados
de usinas e fornecedores de cana, os repórteres não testemunharam lavradores se exercitando -a não ser com o facão.
A associação dos usineiros
rejeita projeções sobre a vida
útil dos cortadores. Nem sabe
definir quanto tempo eles permanecem na atividade.
O pagamento por produção
não incentiva o trabalhador a
ultrapassar seus limites? "Não
existe esse absurdo de que falam", diz Padua. Ele estima o
piso salarial no Estado em uma
faixa de R$ 480 a R$ 550. "O
trabalho é difícil, penoso, mas
não é desumano."
Segundo o Instituto de Economia Agrícola, em 2007 a remuneração média pelo corte
em São Paulo foi de R$ 720.
Nas contas da Unica, por volta
de 95% do emprego local no
cultivo da cana é formalizado.
A Unica contesta igualmente
as autuações do Ministério do
Trabalho por submissão, em
canaviais, de trabalhadores a
condição análoga à de escravo.
Há excessiva subjetividade
na interpretação dos fatos, diz
Padua. "Pagar abaixo do salário
mínimo é trabalho escravo?",
indaga. Propõe revisar a legislação para torná-la mais clara
-o Código Penal prevê o crime
referente ao trabalho escravo.
"Heróis" de Lula
Um problema do setor sucroalcooleiro, aponta Padua, é a
terceirização da produção de
cana. Protocolos definem o fim
da prática para 2010 em São
Paulo. Ela "traz desconforto",
diz, porque as usinas "têm que
responder [na Justiça] como se
fosse trabalho próprio".
Na visão dos usineiros, pesquisas sobre o impacto nocivo
do trabalho padecem de limitação severa: o universo pequeno
dos indivíduos analisados. É o
caso, exemplificam, de tese sobre o nível elevado de substâncias cancerígenas na urina de
41 cortadores durante a safra.
Outra crítica se dirige contra
organizações civis e o jornalismo. Do ponto de vista da Unica,
tomam-se como padrão alguns
maus exemplos pontuais de
gestão do trabalho. A agremiação e seus 117 associados (eram
menos de 90 um ano atrás)
mantêm 154 iniciativas de qualificação de mão-de-obra.
O segmento de cana, açúcar e
álcool deve movimentar R$ 40
bilhões neste ano no Brasil, diz
a Unica. O valor corresponde a
pouco mais de 1,5% do PIB.
A Secretaria da Agricultura e
Abastecimento avaliou que a
cana-de-açúcar representou no
ano passado 36% do valor da
produção agropecuária de SP.
O Estado deve fechar o ano
com 181 usinas, sete a mais que
as já em funcionamento. No
centro-sul, incluindo o Sudeste, de 80 a 90 devem começar a
operar em três anos. No país, há
em torno de 370.
A imagem dos usineiros, que
já foram sinônimo de irresponsabilidade social e paradigma
de beneficiários de benesses do
Estado, vem mudando. Pelo
menos para o presidente da República, natural de Pernambuco, área canavieira tradicional.
Luiz Inácio Lula da Silva disse em março de 2007: "Os usineiros, que até seis anos atrás
eram tidos como se fossem os
bandidos do agronegócio neste
país, estão virando heróis nacionais e mundiais porque todo
mundo está de olho no álcool".
Neste ano, Lula minimizou o
trabalho degradante na roça:
"Vira e mexe, estamos vendo
eles [europeus] falarem do trabalho escravo no Brasil, sem
lembrar que no desenvolvimento deles, à base do carvão, o
trabalho era muito mais penoso que o trabalho na cana-de-açúcar".
Os usineiros são mesmo heróis? Padua cita o jogo duro do
mercado mundial, as pressões
ambientais e sociais. Sua síntese: os empresários "têm coragem de se expor. O setor não é
de aventureiros".
Na despedida dos jornalistas,
a Unica entregou publicações,
algumas em inglês. Nelas cintilam fotos de usinas e de canaviais. Em nenhuma aparece um
só trabalhador cortando cana.
Manual antiquado
Máquinas já colhem 50% da safra em SP; a cada 1% de área mecanizada, 2.700 pessoas perdem emprego
DOS ENVIADOS AO INTERIOR DE SP
Moradores de cidades litorâneas praguejam
contra o estrago que a maresia faz nos eletrodomésticos.
Mas não têm idéia do inferno
que é, para a limpeza de casa, a
sujeira nos municípios onde se
cultiva cana.
Limpa-se de manhã, e, à noite, a fuligem das queimadas encobre tudo de novo. A imundície vai acabar, bem como o fogo
e os cogumelos de fumaça que
lançam gás carbônico e outros
poluentes que conspiram para
o aquecimento global.
Protocolo ambiental do governo do Estado com as usinas
prevê para 2014 o fim das queimadas em áreas passíveis de
colheita mecanizada de cana e,
para 2017, nas não mecanizáveis (acima de 12 graus de declive). Conforme a Unica, estas
representam em torno de 7%.
Antonio de Padua Rodrigues,
diretor técnico da entidade,
afirma que o prazo será antecipado: "2014 será quase o fim".
A produtividade dos cortadores é maior em lavouras submetidas antes à queima. O fogo
preserva as varas, e o corte manual fica mais simples.
E menos perigoso -as queimadas eliminam animais peçonhentos. Na cana crua, a colheitadeira é ainda mais rentável que o homem.
A safra deste ano (denominada 2008/2009), de abril a novembro, é a primeira em que
pelo menos metade da cana será colhida mecanicamente,
anuncia a Unica. O custo da
operação da colheita mecanizada é 20% menor.
As máquina substitui cerca
de 80 homens. O conjunto de
equipamentos que inclui a colheitadeira sai em média por
R$ 1,2 milhão, calcula a Unica.
Há 1.650 em ação em SP.
Em 2006, o Estado produziu
299 milhões de toneladas de
cana e empregou 189,6 mil pessoas no corte manual. No total,
contando a colheita mecânica e
a indústria de etanol e açúcar,
havia 260,4 mil empregados.
Em 2015, dizem os usineiros, será zero o emprego em colheita manual. Na
cadeia produtiva, haverá 127,8 mil funcionários, mesmo colhendo 457
milhões de toneladas.
Os cortadores são 135 mil em
São Paulo em 2008, estimam
os empresários. No Brasil, ao
todo seriam 335 mil. A Unica
adota estatísticas de um estudo
que, baseado no IBGE, quantificou em 566 mil os trabalhadores no cultivo da cana no
país em 2006. No Nordeste, os
cortadores serão mantidos por
mais tempo que em SP.
No centro-sul, que concentra
o setor sucroalcooleiro e inclui
o Sudeste, a colheita na safra é
11,57% maior que em 2007 no
mesmo período. A produção de
açúcar caiu 2,51%, mas a de álcool se expandiu 15,61%.
Destina-se ao etanol 60% da
cana. O Instituto de Economia
Agrícola, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento de SP,
avalia que, a cada 1% de área
mecanizada, desempregam-se
2.700 pessoas.
Vestígios arcaicos
Cor da pele, vocabulário e analfabetismo remetem cortadores de cana de São Paulo aos tempos do escravismo
DOS ENVIADOS AO INTERIOR DE SP
O cenário verdejante
que pigmenta as
fotografias e colore o horizonte não
passa de ilusão -o
tom do canavial é outro. A fuligem das queimadas ensombrece as varas de cana-de-açúcar e
torna rubro-negra a terra roxa
em que outrora se fincavam cafezais. Fragmentos da palha incinerada se amalgamam com o
suor dos rostos e desenham
máscaras escuras. A cor predominante dos canavieiros, de
banho tomado, não muda.
São negros -a soma de "pretos" e "pardos"- 63,7% dos
trabalhadores no cultivo da cana no país. A proporção supera
os 43,4% de negros na PEA
(população economicamente
ativa) e os 55% na PEA rural.
A característica se repete em
São Paulo, onde a presença negra na labuta da cana beira os
49%, o equivalente a 76% mais
que na PEA geral do Estado e
54% mais que na sua fração do
campo -conforme o Censo de
2000, em dados colecionados
pelo economista Marcelo Paixão (UFRJ).
Os números frios ganham vida nas plantações. De perto, o
canavial é mesmo negro.
Como eram os escravos que
no Brasil moviam as moendas
de cana, como documentou
aquarela de Jean-Baptiste Debret em 1822. Ou, em gravura
de William Clark de meses depois, os cativos que decepavam
com facão a cana em Antígua.
Traços raciais e instrumentos de ofício se mantêm, mas o
anacronismo vai além da semelhança de personagens dos retratos atuais com os das pinceladas do século retrasado.
É como se estatuto e cultura
escravistas teimassem em permanecer, assim como um pé de
cana se agarra ao solo e por vezes rende dez safras.
"Já conversei com o meu feitor", diz um canavieiro, sobre a
autorização para que ele fosse
fotografado para a reportagem
(pedido negado). "O meu feitor
é bom comigo", concede outro.
Inexiste conteúdo pejorativo, na boca dos cortadores, ao
pronunciar a palavra. No
Houaiss, uma acepção de feitor: "Diacronismo: antigo. Diz-se de encarregado dos trabalhadores escravos".
É arcaico -ou velhaco-, porém os chefes de turma assim
são chamados na roça. Imprimiu-se a expressão "feitor" em
ação civil pública e em decisão
judicial recentes.
Em meio ao canavial, o cortador cuida do seu "eito". "Não
paro até acabar o meu eito",
conta um. O dicionário define
eito como "plantação em que
os escravos trabalhavam".
Analfabetismo
Assim como na escravidão
africanos e descendentes cantavam, a cantoria hoje desafia o
silêncio nas fazendas. Não são
tristes os canaviais.
Em Serra Azul, um peão embala os golpes de podão com refrão da dupla sertaneja Gino e
Geno: "Não é bebendo que você
vai esquecer de mim; não é fugindo que o nosso amor vai chegar ao fim".
Cortadores de cana apegam-se ao copo, reconhecem muitos
deles. A convivência longe da
roça confirma.
A caninha não era tabu pré-Abolição. Na década de 1820,
Carlos Augusto Taunay recomendava aos senhores, no
"Manual do Agricultor Brasileiro", distribuir cachaça aos
escravos após o jantar (reedição da Companhia das Letras,
2001, organização do historiador da USP Rafael de Bivar
Marquese).
Naquele tempo, confinava-se
a escravaria no analfabetismo.
Na Revolta dos Malês, levante
negro na Bahia de 1835, os líderes se distinguiram pelo domínio, raro, da leitura e da escrita.
Colhe-se o semeado. Com
base em estatísticas de 2006, os
pesquisadores Rodolfo Hoffmann (Unicamp) e Fabíola C.R.
de Oliveira (USP) constataram
que a escolaridade média dos
trabalhadores da cana é de 3,7
anos. Na classificação de educadores, isso os reduz à condição de analfabetos funcionais.
No país, a média de estudo é
de 6,9 anos. Na indústria do álcool, de 8,6.
Acumulam-se contratos em que a impressão digital do funcionário
substitui a assinatura. "Não vou mentir, nunca fui à escola",
conforma-se uma lavradora. Ela não pode ler os relatórios do Ministério
do Trabalho e da Organização Internacional do Trabalho que descrevem
cortadores de cana "resgatados" e "libertados".
Em maio, a Justiça Federal
do Maranhão condenou um fazendeiro por reduzir seres humanos a condição análoga à de
escravo. Ele foi acusado de torturar um funcionário com ferro
de marcar gado.
Também por trabalho escravo, em 2005 a Justiça Federal
de Piracicaba sentenciou à prisão um aliciador de paraibanos
para o corte da cana em Nova
Odessa (SP).
Cabem recursos.
Escravidão
Como interpretou Gilberto
Freyre em "Casa Grande &
Senzala", a cana "trouxe em
conseqüência uma sociedade e
um gênero de vida de tendências mais ou menos aristocráticas e escravocratas".
No canavial, o "mais ou menos" deu lugar ao paroxismo.
No livro clássico de 1933, o
sociólogo pernambucano anotou que, nos idos de 1850,
anúncios apregoavam preferência por negros com todos os
dentes da frente. Nas plantações contemporâneas, multiplicam-se banguelas.
No finzinho do século 17, o jesuíta Jorge Benci pregava que
os escravos não dessem duro
aos domingos, como cita Bivar
Marquese no livro "Feitores do
Corpo, Missionários da Mente"
(Companhia das Letras, 2004).
Hoje o Ministério Público do
Trabalho combate o regime de
cinco dias por um, adotado em
muitos canaviais, no qual poucas folgas caem nos domingos e
feriados.
A escala impede os oriundos
de Minas Gerais e do Nordeste
de celebrar datas que lhe são
caras em virtude da religião.
No passado, batia o aperto, corria-se ao matinho. Segue assim: muitas
empresas não instalam banheiros móveis obrigatórios ou, por inibição,
os lavradores os evitam.
Se antes os filhos da casa
grande se iniciavam nos dengos
da cama com as moradoras
mais formosas da senzala, agora se protocolam denúncias de
assédio sexual de feitores contra as cortadoras.
Nas famílias canavieiras, mulheres vivem de outra profissão
herdeira do Brasil colonial: são
empregadas domésticas. Nessa
atividade, elas têm mais tempo
pela frente.
A socióloga Maria Aparecida
Moraes Silva (Unesp) estima
que a vida útil dos cortadores
seja de 15 a 20 anos. É menos
que a dos escravos nas décadas
derradeiras do cativeiro no
país. É como se os lavradores
"estivessem em uma galé", escreveram os professores Francisco Alves (UFSCar) e Marcelo
Paixão.
Em 13 de maio de 1888, a
princesa imperial firmou a lei
nº 3.353, com dois artigos: "É
declarada extinta desde a data
desta lei a escravidão no Brasil.
Revogam-se as disposições em
contrário".
No interior paulista, evoca-se
a história. Em Dois Córregos,
um migrante pernambucano
sobrevive em uma espécie de
cortiço na rua 13 de Maio. Em
Guariba, uma habitação degradada de cortadores maranhenses fica na avenida Princesa
Isabel.
Em Piracicaba, uma blitz oficial parte de outra rua 13 de
Maio. Vai para a roça, onde aves
de rapina perseguem os roedores que as queimadas expulsaram das tocas.
Sem dar pelota ao duelo entre ratos e urubus, homens e
mulheres cortam cana.
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