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Persiste a queda do saldo comercial
O superávit do comércio exterior foi de apenas US$ 4,580 bilhões no primeiro quadrimestre e de US$ 1,744 bilhão em abril, ante US$ 12,905 bilhões e US$ 4,183 bilhões, respectivamente, nos mesmos períodos de 2007. Consolida-se, assim, a queda do saldo comercial em porcentual superior a 60%. Mantida a tendência, o superávit anual cairá para cerca de US$ 16 bilhões, muito abaixo das previsões mais pessimistas do final do ano passado, que projetavam um saldo de US$ 30 bilhões.
Cresceram, em 2008, as compras externas de todas as categorias de produtos, tanto de consumo como de investimento. Um caso típico foi o de veículos: no quadrimestre, a importação passou de US$ 624 milhões para US$ 1,351 bilhão (aumento de 116,5%), influenciada pela estabilidade ou mesmo a queda de preços, em reais, dos autos importados da Coréia do Sul, do México e da Argentina.
E, com o recorde dos preços do petróleo, as compras de combustíveis e lubrificantes cresceram 75,6% em relação a abril de 2007. O porcentual é muito superior ao do aumento das compras de bens de capital (39,8%), que ajudarão, no futuro, a ampliar a oferta de produtos, inclusive para exportar.
A média diária de importações atingiu US$ 591,1 milhões, em 2008, e US$ 586,4 milhões, em abril, ante exportações de US$ 644,2 milhões e de US$ 669,5 milhões, respectivamente. O aumento de 7,6% das exportações em relação a abril de 2007 é pequeno, sobretudo num ciclo de desvalorização da moeda norte-americana em relação às demais moedas. No dia 2/5, não houve superávit, mas déficit comercial de US$ 174 milhões.
Em abril, os efeitos da desaceleração da economia americana começavam a ser percebidos. As exportações do Brasil para os EUA caíram 2% em relação a 2007 e especialistas prevêem maior queda.
O País passa a depender, portanto, de mercados menos exigentes e sofisticados, caso da Venezuela, que está importando mais carros, celulares e alimentos brasileiros, por falta de produção local.
A velocidade de deterioração do superávit comercial é preocupante. Torna-se urgente aumentar as exportações, mas o País é lento na criação de estímulos a essa atividade (logísticos, tributários, etc.), confiando mais nos ganhos de escala.
Afinal, é possível que a greve dos auditores fiscais tenha distorcido os números do comércio em abril, mas não o bastante para mudar a tendência.
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BC espera capital de melhor qualidade
Para Henrique Meirelles, a melhora no rating do Brasil deve trazer ao Brasil mais investimentos de longo prazo
Andrei Netto
A classificação de risco do Brasil como grau de investimento, anunciada pela agência Standard & Poor´s (S & P)na quarta-feira passada, possibilitará o ingresso de capital de melhor qualidade no país, disse ontem o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.
“O capital que é investido no País tende a ser de melhor qualidade. Nas aplicações de mercado financeiro, por exemplo, a tendência é que tenha um prazo de permanência maior”, disse ainda Meirelles que aposta no aumento dos investimentos diretos ao país. A presença de capital especulativo, o chamado “smart money”, na avaliação do presidente do BC, tende a se reduzir.
Meirelles comentou ainda que o Brasil já registra um aumento progressivo dos investimentos de longo prazo, porque o mercado se antecipou às agências de ratings e direcionou as aplicações para o país. Alguns fundos de investimento, segundo ele, têm autorização para investir a partir da concessão do grau de investimento. Outros aguardam que a mesma classificação seja aplicada por outra agência de ratings para investir no Brasil.
As declarações de Meirelles, feitas a jornalistas brasileiros, ontem, ao término do Global Economy Meeting, na sede do Banco de Compensações Internacionais (BIS), na Basiléia, Suíça. O presidente do BC não quis comentar as notícias de que o governo mantém a preocupação com a possibilidade de uma enxurrada de dólares e, por isso, poderia adotar novas medidas para brecar o ingresso de capitais especulativos. “Isso eu não sei. Não estou no Brasil”, disse Meirelles, que focou a entrevista, apenas, na possibilidade de o país receber capitais “de melhor qualidade”.
“O BC não comenta possíveis medidas futuras do governo”, justificou. Minutos mais tarde, falando ao Estado, ele disse que a discussão no Brasil gira em torno do aumento de entrada de capitais em geral, independentemente dos prazos. “Não entro no mérito do prazo de permanência de capital e não estou fazendo nenhum contraponto a nenhuma eventual preocupação”, disse. Ele não quis estimar qual seria o volume de recursos do qual o País poderia se beneficiar após a reclassificação, anunciada pela agência Standard & Poor's na última quarta-feira. 'Não vou entrar no debate se o Brasil receberá mais ou menos recursos com o grau de investimento”, disse ainda o presidente do BC.'
No domingo, uma autoridade monetária presente na reunião do BIS, que pediu para não ser identificada, disse a jornalistas que não conhecia nenhum país que tivesse tomado medidas contra a entrada de capital de curto prazo depois da promoção a grau de investimento. Ao ser lembrado de que o Chile havia tomado a medida, ele disse: “E não deu certo. Até por isso abandonou”.
CENÁRIO SERENO
Como Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu (BCE), Henrique Meirelles considera que o cenário econômico hoje é “muito mais sereno do que era há dois meses”. “O que está consolidada é a resistência dos países emergentes”, disse.
A preocupação das autoridades monetárias começa a se mover, segundo ele, do risco de desaceleração mais forte para a inflação. Diferentemente de Trichet, contudo, preferiu o termo “mais generalizada”, e não “global” para definir as pressões inflacionárias.
E afirmou que segue alerta. “Não é o momento de confundir desejo com realidade”, justificou, esclarecendo que o “desejo” seria “não haver problema nenhum”. “O Brasil está atento e as atas do Comitê de Política Monetária (Copom) já manifestam isso com clareza. Não há novidade”, assegurou. |
Mantega: 'Grau de investimento não é maldição cambial'
Ministro afirma que, ‘no momento’, governo não cogita taxar entrada de capital especulativo no Brasil
Fabio Graner e Beatriz Abreu
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem que a classificação do Brasil como grau de investimento pela agência de ratings Standard & Poor’s “não é uma panacéia que vai resolver todos os problemas do País”. “Mas, ao mesmo tempo, não é uma maldição cambial”, acrescentou. Ele afirma que, no momento, é difícil prever se haverá ou não uma enxurrada de capitais externos mas garantiu que o capital especulativo não é bem-vindo. “O que nós não queremos é que haja fluxo especulativo. Isso não é desejável”, disse Mantega em entrevista ao Estado.
Ele admite que a condição de grau de investimento embute o risco de maior ingresso de capitais, inclusive especulativo, em busca de ganho financeiro no Brasil. “Tem algum risco? Tem. Mas até agora não há. Há apenas uma reflexão, uma possibilidade.” Na avaliação do ministro, é preciso avaliar o comportamento dos mercados para ter um quadro mais preciso em relação ao capital que vem ao Brasil e a eventual adoção de medidas para conter esse movimento. “Não vamos nos antecipar a um problema que não existe.”
O ministro relativiza a questão com o seguinte raciocínio: a crise imobiliária americana atua como fator de inibição do fluxo de capitais. “Não podemos nos esquecer que existe uma escassez de recursos no exterior devido à crise do subprime”. Adicionalmente, como lembrou, o governo introduziu, em março passado, a alíquota de 1,5% do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) no ingresso de capital estrangeiro para aplicação em renda fixa e títulos do Tesouro. “O IOF já reduz a rentabilidade do capital de curto prazo”, comentou.
Por isso, Mantega disse que “no momento” não há uma intenção do governo para modificar regras tributárias para afugentar o capital especulativo, como o aumento imediato de alíquota do IOF ou limitar a isenção do imposto de renda apenas para os investidores estrangeiros que apliquem em títulos públicos e aceitem deixar o dinheiro no País por mais longo prazo.
Considerando a tese de que boa parte do ingresso de capitais ocorreu nos últimos dois anos, Mantega sustenta que o potencial de valorização do câmbio se tornou menor, agora. Ele lembrou que esse maior fluxo foi absorvido pela política de acumulação de reservas, adotada pelo Banco Central, um dos fatores que acelerou a percepção de que o Brasil é um país seguro. “Nós já estávamos na condição de investment grade há algum tempo porque tínhamos robustez fiscal, dívida menor em relação ao produto interno bruto e baixa vulnerabilidade externa.”
Para o ministro, não se observa um “excesso de fluxo financeiro”, que está em um ritmo menor do que o verificado no ano passado por causa da crise americana. “O excesso de fluxo é apenas uma possibilidade”, comentou. Nos últimos dois anos entraram no País cerca de US$ 70 bilhões, segundo Mantega. Essa análise sustenta a argumentação de que, no momento, “não há uma valorização do câmbio preocupante”.
O ministro garantiu que o governo não permitirá uma deterioração da conta corrente do balanço de pagamentos. Segundo ele, o meio de o governo evitar essa escalada no saldo negativo da conta corrente é estimulando as exportações de bens e serviços. Isso será feito por meio da política industrial, sobre a qual Mantega evitou dar detalhes. Ele disse que o câmbio valorizado ainda não provocou danos ao parque produtivo brasileiro, que tem conseguido atender adequadamente à maior demanda interna.
A nova classificação do País conduzirá, certamente, a novos investimentos por causa da queda no custo de captação de recursos do Tesouro Nacional e das empresas. Mantega trabalha com o cenário de que o fluxo de investimentos estrangeiros diretos repetirão o resultado do ano passado, quando entraram US$ 34,5 bilhões. Além disso, ele prevê uma retomada do processo de abertura de capital pelas empresas (IPOs), que foi paralisado pela crise financeira nos mercados internacionais.
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