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| Estatização de bancos custa US$ 500 bi |
Altamiro Silva Júnior, de São Paulo
09/10/2008
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| O sistema bancário europeu e americano já não é mais o mesmo. Em meio ao caos provocado pela crise de liquidez, os governos de vários países correram para socorrer bancos e gastaram até agora US$ 500 bilhões para nacionalizar grandes instituições e evitar o colapso de parte várias delas. |
| Ontem, o governo britânico apresentou os detalhes de um plano de até 400 bilhões de libras esterlinas, dos quais 50 bilhões de libras (US$ 87 bilhões) nos bancos e nacionalizar parcialmente o sistema bancário inglês. Antes disso, os governos da Finlândia, Holanda, Bélgica e França já haviam tomado medidas semelhantes para salvar bancos locais, abalados com os reflexos da crise americana. |
| O governo americano virou dono da maior seguradora do mundo (a AIG) e de duas gigantes de crédito imobiliário (Fannie Mae e Fredie Mac). Ontem, o Fed anunciou uma nova linha para que a AIG tenha acesso a mais caixa, com disponibilidade de até US$ 37,8 bilhões. |
| "A crise de confiança tem várias manifestações e a mais radical é a corrida bancária, daí a necessidade de intervenção para evitar essa catástrofe", diz Ricardo Carneiro, professor do Instituto de Economia da Unicamp. Especialista em economia monetária e financeira, Carneiro afirma que os bancos não sobreviveriam sem essas ações, porque a confiança é a base do sistema e, como diz ele, "essa confiança parece que foi perdida". |
| O Washington Mutual, que foi vendido ao JPMorgan, perdeu US$ 17 bilhões em recursos em poucos dias, o equivalente a 10% do total de depósitos do banco. Na Alemanha, a corrida bancária só se reduziu após o governo anunciar que irá garantir os depósitos de todas as instituições. Fato semelhante aconteceu na Irlanda, Dinamarca e Portugal. |
| "Sem confiança, o sistema quebra. O governo está tentando socorrer gerando liquidez e isso por si só é capaz de gerar confiança", afirma Alex Luiz Ferreira, professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto. Para ele, essas ações do governo podem ajudar a restabelecer a "confiança perdida", mas mudanças regulatórias serão necessárias para o sistema voltar a funcionar. O grande risco é uma recessão mundial por conta da queda do consumo nos EUA. |
| A crise dos bancos europeus veio na esteira dos problemas americanos. A escassez de financiamento em dólares por meio do interbancário (quando um banco empresta para outro) colocou problemas sérios para as instituições que tinham passivos na moeda americana. Com isso, como lembra Carneiro, da Unicamp, o próprio Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) acabou por oferecer linhas de redesconto para bancos europeus. |
| Além do problema de liquidez, os bancos europeus também aplicavam nos títulos de hipotecas americanas de alto risco ("subprime"). Foram esses papéis que deram origem à crise nos EUA. Na Europa não se sabe ainda quais bancos que têm esses títulos e nem em que quantidade. O fato é que, à medida que os bancos americanos foram quebrando, a confiança dos correntistas europeus no sistema bancário foi abalada. |
| Rodolfo Spielmann, sócio da consultoria Bain & Company, e especialista na área financeira, afirma que além dos problemas gerados pela falta de liquidez, a qualidade dos ativos dos bancos passou a ser questionada. "Além da crise de liquidez, começou um problema de solvência." Tudo isso contribuiu para se criar pânico no mercado e, sem as medidas dos governos, Spielmann avalia que haveria um caos ainda maior. |
| Além dos bancos estatizados (total ou parcialmente), os governos gastaram mais de US$ 240 bilhões nas últimas semanas para viabilizarem aquisições de bancos privados por outros bancos privados. Em algumas operações, forneceu empréstimos para financiar as aquisições. Em outras, assumiu dívidas dos bancos e vendeu os ativos que interessavam ao setor privado. Com isso, só em gastos públicos, a ajuda aos bancos ultrapassa os US$ 700 bilhões, sem contar o pacote de ajuda americano para comprar títulos podres do setor, que prevê desembolsos de US$ 850 bilhões. |
| Os bancos brasileiros, que operam com menor nível de alavancagem, devem ter menor impacto. Além disso, o consumidor local não se sobrendividou, como o americano. Por isso, Spielmann acredita em menor contágio da crise no país pelo lado financeiro. O contágio viria principalmente pelo lado real, por exemplo, com menor demanda externa por commodities exportadas pelo país. |
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| Mercado não quer dólar. Quer especular. |
Luiz Sérgio Guimarães
09/10/2008
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| Os leilões de venda direta de dólar feitos ontem pelo Banco Central não podem ser responsabilizados pela baixa de 1,34% registrada pelo dólar no fechamento, cotado a R$ 2,28. Depois de um surto especulativo matinal em que a moeda americana disparou, sem muitos negócios, 7,31%, passando de R$ 2,3110 para R$ 2,48, o Banco Central sacudiu o seu imobilismo e fez três leilões sucessivos de venda. A conta paga pelo BC pela intervenção foi irrisória: sacou das reservas apenas US$ 1,55 bilhão, o equivalente a 0,75% da posição em reserva do dia 3, de US$ 206,885 bilhões. Mas as operações mostraram que o mercado não quer dólares. Quer somente especular com a alta. O BC ofereceu aos bancos nada menos que US$ 4 bilhões e, do US$ 1,55 bilhão efetivamente vendido, US$ 800 milhões foram arrematados pelo Banco do Brasil. São montantes incompatíveis com a maxidesvalorização cambial de 59%. |
| | Na aparência, o sucesso da ofensiva estaria garantido pelo fato de que os volumes e preços foram decrescentes. Na primeira, feita às 10h13, vendeu R$ 1,223 bilhão. Na segunda, às 10h43, o mercado já quis comprar só R$ 310 milhões. Na terceira operação, às 11h29, colocou apenas R$ 16 milhões. E as taxas de corte foram declinantes, de R$ 2,4485 no primeiro, R$ 2,37 no segundo e R$ 2,3560 no terceiro. Se sua fome por dólares fosse insaciável, o mercado exigiria volumes crescentes e as taxas não diminuiriam. Da mesma forma que o BC errou ao permitir, em 2006, que o dólar caísse abaixo de R$ 2,00, equivocou-se agora, no início do mês, ao autorizar que superasse os R$ 2,00. Ele optou pela estratégia de apenas observar a alta enquanto ajudava, via leilão de swaps cambiais, os bancos a se livrar dos hoje ruinosos (antigamente, ultrarentáveis) swaps reversos. A outra estratégia, a do leilão de linhas externas, nunca foi levada a sério pelos corretores de câmbio. A venda compromissada de dólares, equivalente técnico ao fornecimento de um crédito em dólar, nunca atingiu o coração da disparada. Os números sobre fluxo cambial divulgados ontem pelo BC comprovam o alerta dado por esta coluna no dia 2 de que a arrancada decorria de armações especulativas feitas nos pregões de derivativos cambiais da BM&F e em mercados de balcão por investidores estrangeiros, exportadoras nacionais e bancos instalados aqui. |
| A balança cambial relativa aos primeiros dias de outubro comprova a informação de que, se há de fato um corte importante nas linhas de ACC, os exportadores encontram outras alternativas para fechar suas vendas externas. O fluxo registrado nos três primeiros dias do mês foi positivo em US$ 514 milhões. A conta comercial foi superavitária em US$ 1,14 bilhão enquanto a financeira mostrou déficit de US$ 631 milhões. Os bancos estão, como sempre, na posição correta. À vista, elevaram suas posições "compradas" de US$ 3,75 bilhões no fim de agosto para US$ 6,68 bilhões no fim de setembro. Obviamente, antes de divulgá-los, o BC já tinha conhecimento dos dados. E, mesmo sabendo que não era a falta de linha, nem os prejuízos com os swaps cambiais reversos (compensados pelas outras posições "compradas" dos bancos ) os responsáveis pela espetacular valorização do dólar, insistia apenas na venda de linhas e recompra de swaps. Tais operações não faziam, é claro, efeito nenhum. Os leilões de venda direta fazem? |
| Não é por que o dólar fechou em queda ontem que o BC irá se descuidar. Vai ter de dar paulada todo dia se os especuladores colocarem de novo a cabeça para fora. E o farão, para aumentar lucros ou se livrar de posições desastrosas, se o Dow Jones piorar mais ainda. O BC terá de derrubar a taxa de câmbio porque, a despeito da paradeira no lado real da economia, historicamente sempre há contágio inflacionário de maxidesvalorizações cambiais. Foi assim em 1999, foi assim em 2002. Após o fim da âncora cambial, logo no primeiro mês de 1999, o real depreciou-se quase 63%, o Copom puxou a Selic de 25% para 45% em sua reunião de 4 de março de 1999, mas a inflação anual bateu em 8,94%. Mas o Brasil não está hoje "fundamentalmente" diferente daqueles outros brasis? Está, sim, em quase todos os fundamentos, menos em um, o da dívida interna pública. E já há economista ressuscitando a famosa e polêmica tese da "dominância fiscal". Por ela, o BC não poderia seguir os passos da flexibilização monetária coordenada feitos ontem pelos mais importantes bancos centrais do mundo porque, por causa da alta do dólar e premido pela necessidade de rolar os papéis da dívida pública, teria de aceitar as taxas pedidas pelos bancos credores. O BC perderia a capacidade de fazer política monetária. Não seria mais ele a determinar a Selic, mas os credores da dívida, os mesmos que estão "comprados" em dólar. |
| Luiz Sérgio Guimarães é repórter de finanças |
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| Votorantim desmonta posições vendidas em dólar com opções |
Cristiane Perini Lucchesi e André Vieira, de São Paulo
09/10/2008
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| Depois da Sadia e da Aracruz, mais uma grande empresa confirmou ontem ao Valor que desfez posições vendidas em dólar. O Grupo Votorantim admitiu que desmontou suas posições de venda de opções de compra. Segundo o mercado, foi anteontem que a empresa comprou dólar em volumes mais significativos, que totalizaram US$ 6 bilhões. A empresa de capital fechado não informou valores envolvidos na transação. |
| Segundo nota da Votorantim, o grupo, controlado pela família Ermírio de Moraes, tinha realizado "algumas" operações de "opção de verificação em dólar" nos últimos meses e elas foram eliminadas completamente até o dia de ontem. "O grupo Votorantim mantém a sua trajetória de crescimento, assegurando a criação de valor em todas as suas atividades", diz a nota. |
| | No dia anterior, o grupo havia dito que sua exposição com operações de derivativos não era significativa, mas não deu detalhes de percentuais ou de valores envolvidos nestas operações. Os planos de investimentos do grupo, que atua em cimento, metais, celulose, entre outros, são investir R$ 25 bilhões até 2012, mas os acionistas não descartam a possibilidade de retardar a implantação de algum projeto caso a situação de mercado continue muitíssimo conturbada. |
| Ao vender uma opção de compra para o banco, a empresa vende a essa instituição o direito de comprar dólar a uma determinada cotação no futuro. Se o dólar ficar acima dessa cotação na hora do vencimento da opção, a empresa tem de pagar a diferença. Para desfazer essa operação, a empresa precisa pagar o prejuízo e comprar uma opção de compra de dólar. É na prática uma compra de dólar no mercado futuro, que acaba aumentando a demanda pela moeda e pressionando sua cotação para cima. É uma clássica realização de prejuízos. |
| A Sadia foi a primeira a anunciar que desmontou o excesso de sua exposição vendida em câmbio e registrou perdas de R$ 760 milhões com isso. Foi ao mercado tomar linhas de crédito para recompor seu caixa. Segundo a Standard & Poor's, a empresa tomou aproximadamente US$ 1 bilhão em linhas de curto prazo para preservar sua liquidez, deteriorando o perfil de sua dívida, que teve sua nota rebaixada. A nota do crédito externo de longo prazo de Sadia dada pela S&P passou de "BB+" para "BB". |
| No caso da Aracruz, ela anunciou prejuízo potencial total de R$ 1,95 bilhão com operações estruturadas com opções e venda de dólar a termo ("target forward"). Não deixou claro sua exposição líquida ao risco cambial, mas anunciou que comprou dólar a termo no total de US$ 540 milhões para desmontar suas posições vendidas em dólar. Não esclareceu no entanto se elas foram todas desmontadas ou não. |
| Há empresas que ficaram expostas ao risco cambial em operações de crédito acopladas com opções de compra de dólar vendidas ao banco credor. Os rumores são de que litígios jurídicos e não-pagamentos já se iniciaram. |
| O total de posições vendidas em dólar das empresas clientes com os bancos no mercado de balcão da Cetip chega a R$ 58 bilhões, segundo informa a empresa, na qual são registrados aproximadamente 85% dos contratos de balcão (entre duas partes) do mercado financeiro brasileiro. O resto é registrado na BM&FBovespa. Diferentemente do que acontece no mercado internacional, o Banco Central tem acesso a todas as informações dos registrados da Cetip e da BM&FBovespa. O mercado de balcão no Brasil não é uma caixa preta para os reguladores no Brasil. |
| É importante notar todas que essas transações de venda de dólar futuro na Cetip não necessariamente são operações especulativas. Há casos nos quais a empresa exportadora casou o vencimento de sua operação vendida no mercado futuro com a data de recebimento das receitas de sua exportação. Estão incluídas aí operações de dólar a termo, futuro, swaps, opções de compra e venda e todo o tipo de exposição cambial vendida em dólar das empresas com os bancos. |
| Segundo a Cetip, desse estoque total, há R$ 10,74 bilhões que vencem em 30 dias, outros R$ 9 bilhões que vencem em um período de 31 a 60 dias, R$ 6,78 bilhões que vencem de 61 a 90 dias, outros R$ 12,72 bilhões que vencem em 91 a 180 e a maior parte - R$ 15,22 bilhões - vence de 180 a 360 dias. Os restantes R$ 4,5 bilhões vencem em prazo superior a 360 dias. |
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