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Folha de S.Paulo - Tratado como "messias" pelo Ocidente, Saakashvili exibiu lado imprevisível -
www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1308200807.htm
Tratado como "messias" pelo Ocidente, Saakashvili exibiu lado imprevisível

SHAUN WALKER
DO "INDEPENDENT", EM TBILISI

Usando o terno escuro e a gravata vermelha que se tornaram sua marca registrada, Mikheil Saakashvili saiu ao terraço de seu palácio presidencial em meio à tarde úmida da segunda-feira em Tbilisi para enfrentar a mídia internacional. Ele falou apaixonadamente sobre a necessidade de a comunidade internacional responder à "invasão" russa de seu país, mas, para um homem sempre faminto pelas atenções da mídia e renomado pelo carisma, parecia fatigado e desgastado.
De muitas maneiras, o comportamento que ele exibiu ao longo da última semana seguiu o modelo previsível. Saakashvili há muito vem sendo um enigma político. Quando a Revolução Rosa o levou ao poder em um levante incruento em 2003, o Ocidente decidiu que o trataria como a um messias retornado para levar a democracia ao seu pequeno país do Cáucaso, e espalhá-la pela região.
De maneira igualmente rápida, ele se tornou o inimigo número um do Kremlin. Enquanto o Ocidente se deliciava com a reação em cadeia de "revoluções coloridas" que sua chegada ao poder deflagrou, os russos se sentiam aterrorizados. Mas enquanto Washington e Bruxelas pareciam deliciados diante de um líder desejoso de abrir o país ao Ocidente e que falava sua língua, sempre houve dúvidas quanto à possibilidade de que Saakashvili talvez se comportasse de maneira um tanto descontrolada.
A linguagem que ele emprega com relação à Rússia sempre foi provocadora, e o presidente exibiu traços de impulsividade e até mesmo de crueldade na repressão a manifestações de rua, neste ano.

Sem mastigar
Nos últimos dias, a expressão de Saakashvili é a de um homem que abocanhou presa maior do que conseguiria mastigar. A Rússia estava evidentemente ansiosa por um pretexto para combater, mas parece difícil não concluir que a cartada vital nesse arriscado jogo foi dada por Saakashvili ao ordenar um ataque aberto contra a Ossétia do Sul na noite do dia 7.
Ele decidiu que pagaria para ver se Putin estava blefando, e o premiê russo, ostentando a linguagem áspera que o tornou conhecido, mostrou as cartas.
Na entrevista de segunda-feira, o líder georgiano exibiu um sorriso estranhamente inadequado quando perguntado sobre um "incidente de segurança" que teria envolvido a ele e ao ministro francês do Exterior, Bernard Kouchner, anteontem em Gori, quando os dois líderes foram conduzidos apressadamente aos seus automóveis e levados para fora da cidade. Um diplomata estrangeiro disse que Saakashvili "parecia perdido" nos últimos dias.
Ele claramente cometeu um imenso erro de cálculo ao estimar o nível de apoio do Ocidente com que poderia contar em caso de guerra.


Tradução de PAULO MIGLIACCI
Folha de S.Paulo - Lei de país civilizado não serve ao Brasil, afirma juiz - 13/08/2008
www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1308200802.htm
Lei de país civilizado não serve ao Brasil, afirma juiz

Ao se corrigir, De Sanctis declara que "quis dizer que não somos país de Primeiro Mundo"

Na CPI dos Grampos, juiz da Operação Satiagraha diz que medo de grampo é "folclórico" e defende escuta por tempo indeterminado


MARIA CLARA CABRAL
HUDSON CORRÊA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Em depoimento ontem à CPI dos Grampos da Câmara, o juiz Fausto Martin De Sanctis, responsável por autorizar as prisões da Operação Satiagraha, afirmou que não adianta aprovar no Brasil lei de país civilizado porque esse "país não é".
"Temos que fazer uma lei adequada ao nosso país. Não adianta querer fazer lei de país civilizado porque esse país não é." De Sanctis, que deu a declaração ao defender realização de interceptações telefônicas por tempo indeterminado, tentou se corrigir em seguida: "Quis dizer que não somos um país de Primeiro Mundo".
Para o juiz, o limite para escutas previsto em projeto do governo pode dificultar investigações que requerem mais tempo. A proposta, enviada em abril ao Congresso, prevê que o prazo de duração da quebra do sigilo não exceda 60 dias, prorrogáveis por iguais e sucessivos períodos, por, no máximo, 360 dias. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já determinou que ministros viabilizem a votação do projeto no Congresso. A lei atual não prevê tempo máximo para a duração dos grampos.
Segundo De Sanctis, o medo de interceptações é "folclórico" e favorece a impunidade. "Todo mundo acha que está sendo monitorado, o que é isso? É uma síndrome do pânico, vamos parar com isso! Isso é folclórico, é uma tentativa de acabar com o que está funcionando, isso é um factóide", disse.
O juiz defendeu a independência da Polícia Federal ao comentar o afastamento do delegado Protógenes Queiroz da Operação Satiagraha. "Acho que a PF precisaria ser independente. Às vezes, delegados são afastados sem muito questionamento", afirmou De Sanctis, que rejeitou proposta do presidente da CPI, Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), para que a sessão de ontem fosse fechada.
Ele jogou a responsabilidade sobre o vazamento de informações para as operadoras de telefonia. "É sobre elas [teles] que deviam cuidar para termos um controle mais rígido, porque o vazamento está acontecendo por meio delas. Se querem aprimorar a legislação, não é limitando [o grampo] a 360 dias."
De Sanctis também negou que haja um exagero nas autorizações de escutas. Segundo dados levantados por ele, dos 842 inquéritos em andamento na 6ª Vara Criminal Federal de São Paulo, da qual ele é titular, apenas 21 foram contemplados com interceptações telefônicas, o que representa 2,43%.
Ainda durante depoimento à CPI, o juiz negou que tenha autorizado a instalação de qualquer tipo de escuta no STF (Supremo Tribunal Federal) para monitorar o presidente Gilmar Mendes. Em meio à Operação Satiagraha, Mendes recebeu denúncia de que seu gabinete teria sido monitorado pela PF a pedido do juiz. "Em nenhuma hipótese, cogitei ou admiti monitorar qualquer pessoa com prerrogativa de foro, leia-se: desembargador do tribunal ou ministro do STF. Nunca fiz isso e nunca farei. Essa é a verdade, acreditem ou não", afirmou.
De Sanctis disse que recebeu, após decretar pela segunda vez a prisão do empresário Daniel Dantas, uma telefonema da vice-presidente do TRF (Tribunal Regional Federal) da 3ª Região em São Paulo, Suzana de Camargo Gomes. "Ela tomou conhecimento por parte do ministro [Mendes,] de que, segundo versão dela, estava realmente irado. Ele tomou isso como um ato pessoal, o que não foi."
Depois da decisão, Mendes mandou soltar Dantas pela segunda vez. "Ligações de desembargadores para saber sobre um caso concreto não têm ocorrido", disse o juiz afirmando que não aceita tentativa de interferência. Ele, porém, não acusou a desembargadora de interferir na operação.
Perante os deputados, o juiz defendeu o uso de senhas pelas autoridades policiais, que dão acesso aos dados cadastrais e também ao histórico de ligações dos clientes de telefonia. "A polícia precisa saber quem está ligando e, por isso, ela pede senhas para saber o histórico e quem está ligando. Se houver reiteradas ligações para o suspeito, a polícia pode fazer novo pedido de interceptação dessa nova linha", declarou.
De Sanctis disse que os deputados não "podem e não devem alicerçar seus pensamentos em matérias jornalísticas alarmistas que fazem propiciar a todos um sentimento equivocado de instabilidade e terror".

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