Rodrigues cobra mais ação do governo para o mercado de álcool
Ex-ministro da Agricultura diz que não há estratégia do país e que faltam fornecedores para criar mercado externo
Ex-titular da pasta afirma
que 11 ministérios cuidam
do tema, mas que ausência
de diálogo prejudica meta
de crescimento do mercado
DA SUCURSAL DO RIO
O ex-ministro da Agricultura
Roberto Rodrigues diz que falta
planejamento do governo para
a produção de álcool. Segundo
ele, os 11 ministérios envolvidos com o assunto não se comunicam. Ele defende a criação da Secretaria Nacional de Agroenergia para unir esforços.
Rodrigues é co-presidente da
Comissão Interamericana do
Etanol ao lado do ex-governador da Flórida Jeb Bush e do
presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento
(BID), Luis Alberto Moreno.
FOLHA - Por que não se conseguiu
criar mercado para a exportação do
álcool?
ROBERTO RODRIGUES - Para que
um produto se torne uma commodity é preciso haver diferentes fornecedores. A troco de
que outros países substituiriam
a dependência de petróleo da
Arábia Saudita pela dependência de álcool do Brasil? Há uma
paúra lá fora em relação à dependência de um fornecedor. O
primeiro passo, portanto, é
existirem vários fornecedores.
FOLHA - O que está sendo feito para isso?
RODRIGUES - A Comissão Interamericana do Etanol foi criada para estimular outros países, pelo menos na América Latina. Já há projetos em andamento na República Dominicana, Haiti e El Salvador.
FOLHA - E quais são os outros entraves para a exportação?
RODRIGUES - A falta de legislação nos países consumidores
que obrigue a mistura do álcool
à gasolina. Se não houver uma
imposição legal, a indústria do
petróleo não vai permitir a
criação do mercado internacional para o álcool.
Esse movimento está começando a acontecer. Os norte-americanos estão com esta temática em discussão.
FOLHA - Só que os Estados Unidos
querem garantir o consumo do etanol produzido por eles, a partir do
milho, não?
RODRIGUES - Eles querem garantir o álcool produzido por
eles, não necessariamente a
partir do milho. Estão fazendo
um investimento rigoroso no
etanol de celulose, que vai levar
uma ou duas décadas para ser
competitivo. Mas estão investindo tanto em pesquisa que
dará certo, mais cedo ou mais
tarde. Além da produção própria, os Estados Unidos terão
de importar álcool e é por isso
que, no acordo entre Bush e
Lula, surgiu o programa para
investimento na América Central e Caribe.
O terceiro ponto é o estabelecimento, por parte do Brasil,
de uma estratégia para o álcool,
que ele ainda não tem. Se você
perguntar a qualquer empresário privado do setor quanto álcool o Brasil quer produzir,
ninguém terá a resposta.
FOLHA - Não há planejamento para o crescimento da produção?
RODRIGUES - Não há. E isso é tão
grave que o crescimento de 7%
na produção de cana em 2007
derrubou os preços em 30%. Isso mostra como não há planejamento estratégico nesse processo. Ninguém definiu quanto álcool devemos produzir, como
vai ser o financiamento da expansão da produção.
FOLHA - O governo está sendo
omisso?
RODRIGUES - Há 11 ministérios
cuidando desse assunto, em
Brasília, e todos com gente
muito séria, bem intencionada
e competente, mas não conversam entre si. Por isso, não temos estratégia. Os EUA estão
gastando US$ 2 bilhões de tecnologia e pesquisa, nós investimentos menos de 10% disso.
Como manteremos a liderança
tecnológica de um processo, se
não temos dinheiro para tecnologia? Quem vai cuidar da alcooquímica?
FOLHA - E o que o senhor sugere?
RODRIGUES - A criação de uma
Secretaria Nacional de Agroenergia, que congregue os esforços que estão dispersos por dezenas de organismos públicos
federais, estaduais e municipais. Temos centenas de pessoas trabalhando no assunto,
sem coordenação. É importante vendermos etanol para o exterior, mas mais importante é
exportar know-how. Temos
que vender usinas de álcool,
carros flex e inteligência.
Celso Pinto retrata mudanças da economia
Coletânea de mais de duas décadas de textos traça o período mais longo de descaminhos da história econômica do Brasil
Artigos publicados pelo jornalista são reunidos no livro recém-lançado
"Os Desafios do Crescimento - Dos Militares a Lula"
VINICIUS TORRES FREIRE
COLUNISTA DA FOLHA
Celso Pinto nunca foi "pop".
Celso Pinto, porém, é o melhor
jornalista de economia do país,
talvez o melhor que já tivemos.
Uma coletânea de mais de duas
décadas de seus textos jornalísticos está sendo lançada agora
("Os Desafios do Crescimento
-Dos Militares a Lula"). Mais do
que memória ou crônica alentada e refletida do período mais
longo de descaminhos e desastres da história econômica do
país, o volume é uma série
exemplar de artigos sobre o benefício das "certezas da dúvida", para lembrar o nome de
um velho livro de um grande
jornalista, Paulo Francis, que
nada em comum tinha com
Celso.
Mesmo tendo sido autor de
importantes "furos de reportagem", Celso jamais cede à tentação "pop", ao que é ou, melhor, parece mais espetacular.
A sua informação nova e relevante é sempre contextualizada. O dado que poderia causar
sensação nas mãos de um profissional menos refletido e informado é atenuado pelo reconhecimento das asperezas e complexidades do mundo real.
Foi sempre assim ao longo de
sua carreira -como repórter da
antiga "Gazeta Mercantil", como colunista desta Folha ou
como diretor do jornal "Valor
Econômico".
O melhor jornalismo é uma
tentativa sempre precária de
errar menos na tarefa cotidiana, e hoje em dia quase horária,
de separar o que é novo do que
meramente causa sensação,
com o fim pretenso de publicar
novidades importantes que sejam tanto de interesse público
como da curiosidade pública. É
uma atividade, pois, quase inviável. No jornalismo econômico, sob um aspecto essa tarefa é
ainda mais difícil.
Há um jorro diário de indicadores econômicos, estudos e
projetos governamentais e privados, além da fábrica de "papers" acadêmicos ou a linha de
montagem de estudos econométricos que diariamente
"provam" isso ou aquilo (para
não mencionar o lobby travestido de ciência e técnica econômicas). No entanto, a vida e o
mundo são menos sensacionais e mais lentos que muito
jornalismo e a profusão de dados querem fazer crer.
A diversidade de fontes a que
Celso tem acesso, a peneira
contra bobagens de sua boa
formação técnica e o painel de
informações que apresenta em
seus textos acabam por colocar
os dados em seu lugar. O resultado desse trabalho é mais reflexão, menos sensação.
Isto posto e obviamente, Celso não é um ente de pura razão,
nem o observador neutro num
ponto ideal. Fica fácil reconhecer, ainda mais à distância de
20 anos, como o jornalista ainda jovem se empolgou demais
com o Plano Cruzado, como
aliás praticamente todo o país,
em 1986 (Celso tinha então 33
anos). Mas, ao longo do livro, o
que se vê com regularidade é a
dúvida, é a crítica suscitada por
perguntas e questionamentos
certeiros. E pelas investigações
certas.
Celso é um caso raro de repórter, especial por combinar o
conhecimento técnico e a paciência do estudo com a agilidade de perceber a grande notícia. Um de seus melhores momentos foi a cobertura das dificuldades do Plano Real com o
câmbio valorizado, quando, entre outras coisas, revelou as
operações então desconhecidas do governo no mercado futuro de moedas, com o que ganhou a inimizade tola de um ou outro membro da equipe econômica de FHC. Rara inimizade, diga-se, pois Celso tem
acesso a fontes pesadas e diversas. "A capacidade de Celso de
escutar e peneirar o que disseram economistas de diversos
matizes alimenta os diálogos
em que se baseiam os artigos
aqui reproduzidos", diz a economista Eliana Cardoso num
dos prefácios.
Celso é tido como um "liberal", muito próximo ou amigo
mesmo de muitos economistas
que formularam o Real, como
Pérsio Arida e André Lara Resende. Aliás, como conta Arida
noutro prefácio do livro, Celso
foi convidado pelo próprio Arida, com a anuência de FHC, para se integrar à equipe econômica, em 1994, não como assessor de imprensa, mas no papel de memorialista crítico, digamos, da empreitada. Celso
declinou o convite, preocupado
em manter a independência
jornalística.
Seja lá o que signifique o rótulo "liberal", Celso fez parte
de uma geração que se frustrou
com vários aspectos das experiências heterodoxas de controle da inflação e que, ao longo
dos anos 80, se desencantou
mais e mais com a capacidade
do Estado de conduzir a economia. Que se indignou com a extraordinária baderna fiscal brasileira, tema explícito ou implícito de muitas páginas do livro.
Mas, dentre as pessoas que se
ocupam de economia, acabou
na prática por se alinhar ao
"consenso central" do que fazer com a política econômica,
comunhão que se estruturou
nos anos FHC. Não que escrevesse manifestos, longe disso.
Mas é possível perceber sua
posição pelo tipo de questionamentos que faz a seus interlocutores. De resto, Celso é muito mais um repórter analítico e ponderado do que um crítico
estridente de tal ou qual política ou linhagem econômica.
O livro relata com muito detalhe uma série de momentos
críticos, desde a formação do
governo Tancredo ao governo
Lula; mostra a política da formação das diretrizes e equipes
econômicas da Nova República, de Collor, de Lula. Termina
em 2003, com o refluxo da crise cambial e de explosão da dívida pública que ocorrera na
eleição de 2002 (Lula versus
Serra). Celso não tem escrito
mais, pois convalesce de uma
parada cardiorrespiratória.
As histórias de "Desafios do
Crescimento", por fim, provocam sentimentos contraditórios a respeito do percurso econômico do país nos últimos 25 anos -e certo alarme, dada a
proximidade de nova crise
mundial (velharias e maluquices e antigos choques voltarão?).
Por um lado, o relato das intricadas crises brasileiras e do
exotismo de muitos instrumentos de política econômica
utilizados entre os anos 80 e
2000 suscita um certo alívio e
estranhamento. Parecem velharias abandonadas: operações exóticas entre o Banco
Central e a Fazenda, controles
cambiais complexos e ineficazes, discussões bizantinas sobre base monetária, a "privatização" antes ainda maior de políticas públicas, as negociações tétricas da dívida externa
e os calotes. Alívio: parece que
o país melhorou.
Mas soa infelizmente muito
atual a recorrência, no livro, da
discussão sobre o descontrole
fiscal, o persistente "problema"
do câmbio, a lembrança da
existência de entulhos da era
inflacionária; sobre a indeterminação do papel de instituições-chave como o Banco Central e a "captura" de políticas do Estado, seja por empresários, economistas ligados às finanças ou outros grupos de interesses muito particulares.
Brasil vai sofrer algum "incômodo", diz Armínio
Para ex-presidente do BC, inflação na meta traz risco de "pressão para cima"
Retração nos EUA mostra que chance de recessão "está cada vez mais clara'; economista vê alta de 3%
no PIB do Brasil neste ano
GUILHERME BARROS
COLUNISTA DA FOLHA
O economista Armínio Fraga
enfrentou algumas crises econômicas quando esteve no comando do Banco Central, no
segundo mandato do governo
Fernando Henrique Cardoso,
entre 1999 e 2002. Hoje, à frente da Gávea Investimentos, ele
acha que o Brasil vai sentir algum "incômodo" com o processo de desaceleração da economia norte-americana, cada vez
mais com cara de recessão.
"A aversão ao risco está aumentando, e, com isso, a possibilidade de uma recessão está
cada vez mais clara."
O ex-presidente do BC acha
que o Brasil, hoje, está muito
mais bem posicionado do que
em outras crises, mas, mesmo
assim, irá sofrer. "Com certeza,
algum incômodo vamos ter."
Sobre o pacote fiscal anunciado na sexta pelo presidente
dos Estados Unidos, George W.
Bush, Armínio manifestou certo ceticismo em relação à sua
eficácia. Ele considerou as medidas importantes, mas disse
que é muito cedo para se saber
se surtirão efeito. "Vai ajudar a
amortecer o processo de desaceleração, mas é cedo para se
dizer se isso será suficiente para evitar a recessão."
A seguir, a entrevista, concedida por telefone, na tarde de
sexta-feira, pouco depois do
anúncio do pacote fiscal do presidente George W. Bush:
FOLHA - Como o sr. vê o atual momento dos Estados Unidos?
ARMÍNIO FRAGA - Eu vejo os EUA
vivendo um momento de reversão do que foi um ciclo de alta,
de crescimento alavancado, na
qual as famílias americanas aumentaram seu padrão de consumo em cima da valorização
de seus imóveis. Numa certa fase, parecia que o país estava vivendo na economia um novo ciclo virtuoso, mas depois se transformou numa bolha, que,
agora, está se revertendo. Ou
seja, os preços dos imóveis estão em queda.
FOLHA - Qual é o risco de uma recessão nos EUA?
FRAGA - As pessoas estão se
vendo obrigadas a vender seus
imóveis e seus ativos e a qualidade do crédito da economia
americana está se deteriorando. A aversão ao risco está aumentando, e, com isso, a possibilidade de uma recessão está
cada vez mais clara.
FOLHA - O resto do mundo será
atingido pela recessão?
FRAGA - Também no resto do
mundo há sinais de desaceleração. A economia japonesa, por
exemplo, vem mostrando cada
vez mais uma perda do padrão
de confiança do consumidor;
na Europa, até semanas atrás,
falava-se em aumento no juro
para combater a inflação, e,
agora, o mercado já aposta inclusive na possibilidade de um
corte na taxa; e a própria China
vem lidando com problemas de
inflação e também tem que desacelerar o crescimento. Tudo
isso significa menos crescimento, mais aversão ao risco e
mais volatilidade.
FOLHA - E o Brasil? O país também
vai sofrer com a crise?
FRAGA - O Brasil está bem posicionado, mas, como muitos
têm dito -a exemplo do próprio presidente do BC, Henrique Meirelles-, ainda irá sofrer algum incômodo. Nada comparado a outros momentos
quando o nosso grau de vulnerabilidade era muito maior. O
balanço de pagamentos do Brasil está menos dependente do
capital de curto prazo, a inflação está na meta, as reservas estão num nível bem confortável,
mas, mesmo assim, com certeza algum incômodo vamos ter.
FOLHA - O Brasil vai sentir como?
FRAGA - Haverá menos demanda dos nossos produtos e menos investimentos no país.
FOLHA - Em entrevista recente, o
sr. previu um crescimento de 3% para o Brasil neste ano. O sr. não está
muito pessimista?
FRAGA - Não foi uma previsão,
mas apenas um cenário que pode acontecer, um cenário muito ruim para a economia global
neste ano. O mais provável, no
entanto, é que o país cresça um
pouco mais, mas aquele cenário, de um crescimento de 3%, é
possível sim que aconteça.
FOLHA - O que o sr. achou do pacote fiscal anunciado pelo presidente
dos EUA, George W. Bush?
FRAGA - Essas medidas são importantes, assim como a postura adotada pelo BC americano,
mas ainda é cedo para dizer se
farão efeito. Vai ajudar a amortecer o processo de desaceleração, mas é cedo para se será suficiente para evitar a recessão.
FOLHA - A alta da inflação no Brasil
é preocupante?
FRAGA - A inflação se elevou de
3% ao ano para 4,5%, portanto
dentro da meta definida pelo
governo (o centro da meta é de
4,5%). Isso significa que a folga
desapareceu, mas a inflação
ainda está dentro da meta.
FOLHA - O sr. acha que, em razão
dessa alta da inflação, o BC pode ser
levado a subir juros neste ano?
FRAGA - Não prevejo um movimento nesse sentido, mas acho
que, na medida em que a inflação está na meta, sempre há
chances de haver alguma pressão para cima. Eu e a torcida do
Flamengo acreditamos que
existe esse risco quando a inflação está cravada na meta.
FOLHA - Há como saber a extensão
da atual crise em relação às demais?
FRAGA - É difícil dizer agora
qual será o tamanho da crise.
Governo gasta R$ 1,2 milhão por dia com viagens e diárias em 4 anos
Uma das recordistas em despesas é a presidente da Embratur, Jeanine Pires, que no período recebeu R$ 328 mil
Sônia Filgueiras e Expedito Filho, BRASÍLIA
O governo gastou R$ 478 milhões com pagamento de diárias a funcionários públicos, assessores e ministros no ano passado. O valor corresponde a um acumulado, nos últimos quatro anos, de R$ 1,7 bilhão, de acordo com o Portal da Transparência, site oficial do próprio governo. Nesse período, o desembolso médio atingiu R$ 1,2 milhão por dia para financiar hotéis, alimentação e deslocamento urbano de seus funcionários e autoridades. O valor não inclui passagens aéreas.
Na lista dos 15 funcionários e assessores que mais diárias receberam nos últimos anos está a atual presidente da Embratur, Jeanine Pires, ex-diretora de Turismo e Negócios e Eventos da estatal, que em quatro anos recebeu R$ 328 mil. Computados até novembro, os dados serão atualizados nos próximos dias e já se sabe que os valores serão ainda maiores.
Técnicos em orçamento avaliam que essas despesas não sofreram aumentos significativos se comparadas a governos anteriores. Em relação a 2004, os gastos até agora computados no Portal da Transparência apontam um aumento de 24%. O governo atribui os gastos do ano passado ao excesso de eventos, como os Jogos Pan-Americanos e as operações de combate ao crime organizado.
A fiscalização desses gastos cabe à Controladoria-Geral da União, que atribui o grande volume das despesas em alguns ministérios, como o da Justiça (com aumento de 89%) e o do Planejamento (239% de crescimento das diárias), a eventos específicos. A Polícia Federal, órgão do Ministério da Justiça, viveu em 2007 um ano de grandes operações, como a Navalha e a Furacão, além de participar de maneira efetiva dos jogos Pan-Americanos, realizado no Rio de Janeiro. A PF saiu de R$ 15,2 milhões em 2006 para R$ 31,5 milhões no ano passado, dobrando despesas.
Além disso, para acompanhar o aumento dos preços dos hotéis durante a realização do Pan, o governo dobrou o valor das diárias pagas ao funcionário que viajasse a trabalho ao Rio de Janeiro entre julho e setembro do ano passado.
CENSO
No Planejamento, o censo agropecuário e o de cidades de médio porte executados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foram apontados como a principal causa dos aumentos de diárias - os supervisores do órgão viajaram pelo País para fiscalizar o trabalho. Somente em 2007, o IBGE gastou com os programas do censo a quantia de R$ 29 milhões. Detalhe importante: os recenseadores trabalham em seus próprios municípios e não recebem diárias.
No Ministério dos Esportes houve um acréscimo de 117% no último ano - mais uma vez, a explicação recai nos Jogos Pan-Americanos. Para gerenciar o evento, os funcionários do ministério foram transferidos temporariamente de Brasília para o Rio. Eles ocuparam um prédio da Receita Federal e, de uma espécie de ministério itinerante, coordenaram os jogos. O problema é que em quatro anos houve um crescimento nos pagamentos de diárias de 185%, superior ao ocorrido no ano passado, quando efetivamente havia uma razão específica para a expansão do gasto.
NÍVEIS
Toda vez que foram deslocados de seus postos os funcionários o fizeram com autorização de seus chefes imediatos. As diárias não fazem parte do contracheque do servidor e o valor depende de seu escalão. Elas são pagas de acordo com tabela do Ministério do Planejamento, regulamentada por decreto. Quanto mais bem posicionado na máquina for o servidor, melhor será seu pagamento. A menor diária está na casa de R$ 57, paga a um auxiliar em viagem pelo interior, e o valor máximo chega a R$ 187,83, geralmente, para diretores do Banco Central ou os chamados DAS6, que são as funções ocupadas por secretários-executivos, em viagens pelo Brasil.
Dentro do território nacional, os ministros de Estado não recebem diárias. Eles só são beneficiados com esse tipo de ajuda quando se encontram em missão oficial no exterior. Entre os ministros listados pelo Portal da Transparência, Marta Suplicy, do Turismo, lidera a lista dos que mais receberam diárias. A pasta reduziu em 19 % o pagamento das diárias, mas Marta continuou a líder entre os ministros, com R$ 34 mil.
Mas suas viagens, todas internacionais, teriam sido realizadas para promover o Brasil no exterior, fomentar o intercâmbio com os países visitados e atrair novos investimentos por meio de memorandos de entendimento, acordos e outras formas de cooperação. As ações estão previstas no Plano Aquarela de Marketing Internacional, desenvolvido por meio da Embratur - cuja presidente registrou gastos com diárias muito superiores aos da ministra. No ano passado, Jeanine Pires recebeu R$ 72, 5 mil em diárias e, em quatro anos, acumulou R$ 328 mil. Ela supera até o assessor especial da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, que em viagens e missões internacionais recebeu, no ano passado, R$ 27,2 mil.
NÚMEROS
No Ministério do Trabalho, o gasto com diárias também aumentou. Posto federal preferencial dos sindicalistas, o ministério anda a todo vapor no quesito diárias. Saiu de R$ 9 milhões, em 2004, para R$ 11, 8 milhões até novembro do ano passado. O Ministério dos Transportes também acelerou as despesas com diárias. De R$ 3,9 milhões para R$ 7,6 milhões em 2007 - 92% de aumento.
Os números de diárias exibidos no Portal da Transparência são um sinal positivo. Com eles, os técnicos do governo acreditam que os órgãos fiscalizadores, como a Controladoria-Geral da União, podem investigar se, no meio desses gastos, alguém levou vantagem indevida
Especialista vê exagero em vacinação contra febre amarela
Luiz Hildebrando Pereira da Silva entende que não deveria haver imunização contra a doença em áreas urbanas
Fabiane Leite
Um dos maiores especialistas em doenças tropicais no mundo, o médico Luiz Hildebrando Pereira da Silva diz que o governo pode ter exagerado ao estender a recomendação de vacinação contra a febre amarela para além de áreas de matas, conforme instrução divulgada pelo Ministério da Saúde brasileiro. A recomendação do governo abrange também áreas urbanas. A vacina traz riscos, destaca, e deve ser administrada com cuidado.
Segundo o ministério, entre 200 e 2007, as doses da vacina distribuídas são 500% maior que a população que vive em áreas de risco (35 milhões de pessoas). Apenas neste mês, a distribuição já chegou a 7 milhões de doses, mais da metade de tudo o que foi repassado aos Estados em 2007.
“Não se pode fazer vacinação preventiva de população de uma área só porque apareceram casos em pessoas que invadiram área de floresta ou passaram dias em ecoturismo. Isso não coloca em perigo a população das áreas que não estão com esse mesmo tipo de comportamento e, na minha maneira de ver, foi um erro estratégico do Ministério da Saúde”, afirmou Silva, diretor do Instituto de Pesquisas em Patologias Tropicais de Rondônia. “Não haveria a necessidade disso”.
Em férias na França, onde trabalhou por mais de 30 anos no Instituto Pasteur, Silva tem conversado com representantes do ministério. “Eu me informei e técnicos dão explicações de que às vezes são obrigados a atender a certas necessidades extremamente improváveis por questões de ordem psicológica, para mostrar que o ministério é capaz, para garantir tranqüilidade às pessoas.”
Até ontem, 31 pessoas já tinham apresentado reações adversas à vacina, principalmente em razão do recebimento de mais de uma dose em curto espaço de tempo, admitiu o ministério. “É exatamente esta uma das razões de não se poder usar a vacina sistemática”, afirma o especialista. Foi identificada até mesmo uma pessoa que recebe a vacina há quatro anos sistematicamente.
A instrução do ministério diz que vacina só deve ser tomada por pessoas que ainda não tenham sido imunizadas ou que tenham sido há mais de dez anos e que vivam ou se dirijam para áreas de risco - atualmente, a maior parte do País, exceto grande extensão da costa brasileira.
Silva reconhece que o governo teme a expansão da doença para áreas urbanas, o que não ocorre desde 1942, e tem procurado criar barreiras para a ameaça ao estender a imunização para além das matas, mas frisa que não há motivos para tanta preocupação.
“O Ministério da Saúde é plenamente capacitado para bloquear qualquer epidemia de febre amarela na cidade. O mosquito que se infecta não voa nem 5 km e as pessoas infectadas não transmitem a doença por toda a vida. Tenho a impressão de que há pânico e a imprensa precisa contribuir para dizer que não há risco de epidemia”, afirmou ainda.
PREOCUPAÇÃO
O diretor de Vigilância Epidemiológica do ministério, Eduardo Hage, disse que um comitê de especialistas reconheceu como corretas as orientações do ministério sobre vacinação, mas também já se preocupava com o risco de revacinações, pois entendia que, além dos efeitos adversos, poderia trazer desperdício e prejuízo a quem realmente necessita da imunização. “Estavam preocupados porque as revacinações criam um problema maior para as pessoas que vão viajar para essas áreas e podem não conseguir se vacinar.”
A pasta não tem como saber se a maior parte das pessoas que vai aos postos de imunização já foi vacinada, pois a maior demanda é de adultos, que não costumam guardar cartões de vacinação. O ministério também não tem hoje meios legais para exigir os cartões, nem para impedir sob qualquer alegação que uma pessoa se vacine na rede de saúde pública.
Segundo dados de cobertura vacinal disponíveis no site do ministério, até 2004 a maioria das regiões de risco já tinha cobertura de 100% - a pasta não informou os dados mais recentes do País, apesar de solicitação feita pela reportagem na quinta-feira.
“A cobertura do País é ótima, mas pela primeira vez houve a divulgação de caso de febre amarela no Distrito Federal, as pessoas ficaram apavoradas”, analisa o infectologista José Geraldo Leite Ribeiro, que assessora o governo de Minas Gerais. “Há um problema grave no setor de comunicação social dos setores de saúde, que não consegue transmitir a informação necessária.” Para ele, um exemplo disso são os próprios mapas sobre as áreas de risco de febre amarela divulgados, que não são estariam claros para a população. “Minas aparece como área endêmica recente, para quem não é especializado pode parecer que não há muito risco. Não parto do princípio de pôr a culpa em quem não entendeu.”
Ribeiro destaca ainda que educar especificamente viajantes é um desafio no mundo. “Não é culpa da população, é uma questão cultural, difícil.” A maioria dos casos de morte registrados até o momento é de viajantes, não de residentes. O Ministério da Saúde confirmou ontem mais uma morte. Agora são 12 casos neste ano, sendo que 8 pacientes morreram. Ainda há 7 casos suspeitos e 14 já descartados. Na semana passada, o ministro da Saúde, José Temporão, disse que todas as vítimas da doença tinham as informações necessárias e sabiam que deveriam se vacinar.
“Essa situação é oportuna porque a doença é um problema sobre o qual a população tem de se instruir, saber que vai ocorrer com maior freqüência porque é resultado da expansão de populações, invasão de florestas”, afirma Silva. “É preciso conduzir medidas preventivas, a organização de um serviço de saúde mais estruturado e não entrar em pânico. Não se pode vacinar a população de maneira abstrata.
ENTREVISTA - JOSÉ GOMES TEMPORÃO
Tendência é que casos de febre amarela se reduzam
Para ministro da Saúde, aumento da vacinação deve conter evolução da doença
ANGELA PINHO
JOHANNA NUBLAT
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Confrontado com uma escalada do número de casos de febre amarela no país e, ao mesmo tempo, com a corrida da população pela vacina, o ministro
da Saúde, José Gomes Temporão, afirma que há "um clima de
irresponsabilidade no país" e
culpa a mídia por parte dele.
Para Temporão, 56, setores
dos meios de comunicação induziram a população a uma "interpretação equivocada" da
doença. "O governo fala uma
coisa e parte da imprensa estimula outra", disse em entrevista à Folha, por telefone, na tarde de sexta-feira.
Apesar de afirmar que essa
mesma mídia, para ele, precisa
"esquecer a política com "p" pequeno", o ministro nega sofrer
pressão política e diz que o ministério não vai divulgar a lista
de municípios em áreas de risco porque essa tarefa é dos governos estaduais e prefeituras.
Temporão voltou a negar a
possibilidade de uma epidemia
de febre amarela no país, disse
que é nula a chance de casos
urbanos e, diante da falta de vacina em alguns postos, prometeu que o problema será resolvido nesta semana.
FOLHA - O número de casos de febre amarela confirmados neste ano
já é maior do que o do ano passado e
o maior desde 2004. Por quê?
JOSÉ GOMES TEMPORÃO - Eu poderia fazer uma análise distinta. O
número de casos vem diminuindo de maneira consistente
desde 2000 e é bem menor do
que em 2003. Isso tem a ver
com a dinâmica de circulação
do vírus em regiões de mata e
com a entrada de pessoas não
vacinadas nessas regiões. Todos os anos o Brasil apresenta
casos de febre amarela silvestre
porque nós temos matas, macacos, mosquitos e o vírus, circulando permanentemente nessas regiões. O que aconteceu, de
uma certa forma, é que houve
uma interpretação por algum
motivo equivocada da população que desnecessariamente
começou a procurar vacina
mesmo não necessitando.
FOLHA - Houve falta de vacina em
alguns locais...
TEMPORÃO - Houve situações de
desabastecimento em alguns
Estados porque muitas pessoas
que não precisavam acabaram
tomando a vacina e isso fez com
que pessoas que precisavam tivessem dificuldade em encontrar. Mas isso já está sendo reposto e eu tenho certeza que ao
longo da próxima semana toda
a situação de abastecimento vai
estar sob controle.
FOLHA - Com a evolução dos casos
neste ano, pode-se chegar ao patamar de 2000 [85 casos]?
TEMPORÃO - Vai depender um
pouco da dinâmica da circulação do vírus nessas áreas, mas,
por outro lado, nós já temos a
população muito mais protegida do que naquela época. A tendência é que, ao longo das próximas semanas, o número de
casos se reduza.
FOLHA - Qual a possibilidade de alguém que contraiu o vírus da febre
amarela em área rural ser picado pelo Aedes aegypti? O risco de retorno
da febre amarela urbana é zero?
TEMPORÃO - É zero porque todas as medidas que nós tomamos nos dão segurança absoluta de que não há possibilidade
nem remota nem remotíssima
de que o Aedis possa entrar
nessa cadeia e reintroduzir a
febre amarela urbana.
FOLHA - O sr. disse que houve uma
interpretação errada da população
sobre a necessidade da vacina. Onde
acha que houve a desinformação?
TEMPORÃO - Fui em cadeia de
rádio e televisão e posso confirmar que muitos analistas políticos e jornalistas continuam
ignorando de maneira irresponsável a determinação das
autoridades sanitárias. Não
quero generalizar, mas o governo fala uma coisa e parte da imprensa estimula outra coisa e
isso é muito ruim. É preciso ter
mais cuidado no trato das questões de saúde pública e abstrair
um pouco a questão dos governos e da política com "p" pequeno e pensar na política de
saúde.
FOLHA - Quando o sr. fala de "política com "p" pequeno" se refere à imprensa ou a outros tipos de pressão?
TEMPORÃO - Foi principalmente no caso de parte da mídia. Os
jornais de São Paulo, a meu ver,
vêm cobrindo de maneira mais
responsável essa questão do
que outras. Não quero generalizar, mas a imprensa paulista e
carioca pautam muito a imprensa regional, e isso leva para
o interior uma percepção da
realidade que pode induzir as
pessoas a um comportamento
errático, inseguro, emocional.
São seres humanos.
FOLHA - A responsabilidade é só da
imprensa? A população não foi surpreendida pelos primeiros casos,
que foram aumentando dia-a-dia?
TEMPORÃO - Quando você lê na
manchete de um jornal "Mais
um caso de febre amarela",
quando é um caso suspeito,
mais uma morte onde não havia morte, e sem dizer que é silvestre, o que você acha que o cidadão fará? Imediatamente levanta e vai se vacinar.
FOLHA - Há duas pessoas internadas em Brasília por causa de revacinação. O que acontece?
TEMPORÃO - Essas pessoas internadas são, provavelmente,
resultado desse clima de irresponsabilidade que se criou.
EXCLUSIVO
Pugilistas cubanos estão há seis meses fora dos ringues
Situação dos boxeadores Rigondeaux e Erislandy continua indefinida em Cuba
Os dois abandonaram a Vila Olímpica, durante o Pan do Rio, e foram deportados pelo governo brasileiro; eles estão proibidos de lutar
Eduardo Knapp/Folha Imagem
 | Rigondeaux, sua mulher Farah e o filho Guillermo, em sua casa |
LETÍCIA SANDER
ENVIADA ESPECIAL A HAVANA
É manhã de quarta-feira em
Havana, capital de Cuba, e Guillermo Rigondeaux Ortiz está
em casa no bairro de Altahavana com a mulher, o filho e a
mãe. Um dos melhores boxeadores do mundo não faz nada
de especial. Acabara de se despedir de Erislandy Lara Zantaya, também pugilista e companheiro de tardes desocupadas.
Os dois acabam de completar
seis meses afastados dos ringues, sem trabalho, numa rotina sem sobressaltos, que se resume à espera e indefinição.
Rigondeaux, 27 anos, bicampeão olímpico dos pesos-galo
(até 54 kg), e Lara, 24 anos,
campeão mundial dos meio-médios (até 69 kg), estão proibidos de treinar com a equipe
nacional de pugilistas cubanos,
são evitados pelos antigos colegas e até hoje aguardam uma
definição sobre o futuro, sem
sinais da cúpula do regime que
antes os badalavam.
"É uma tortura psicológica",
define Farah, 31, cubana que,
também sem trabalho, compartilha a angústia do marido,
Rigondeaux. "Ele não estava
acostumado a não fazer nada.
Se sente muito mal", disse ela à
Folha na quarta passada.
A saga dos dois começou em
julho do ano passado, quando
abandonaram a seleção cubana
durante os jogos Pan-Americanos no Rio, foram repatriados
depois de alguns dias no Brasil
e acabaram acusados por Fidel
Castro de terem tentado se
vender ao profissionalismo por
um punhado de dólares.
Eles dizem que não foi isso
que aconteceu. Seis meses depois do ocorrido, diante da família e com esperanças de serem perdoados e voltarem a
treinar, os dois ainda se referem à experiência no Rio sem
muita disposição em esclarecer. E poupam o governo de críticas, talvez evitando dificultar
ainda mais as coisas.
Questionados se tentaram
fugir do regime comunista e ficar no Brasil, eles dizem que
não. Foram ameaçados? "Não",
dizem. Familiares sofreram
pressão? "Também não", repetem. Então o que os fez abandonar o Pan-Americano e passar
mais de dez dias sumidos no
Rio? "Foi uma indisciplina",
responde Rigondeaux, sentado
em uma poltrona vermelha na
sala de menos de 30 metros
quadrados da casa em que mora com a família em Havana.
Tido até há pouco como herói nacional cubano, ele recebe
a Folha de bermuda jeans, camiseta preta, chinelos e boné.
De estatura baixa, magro e
quieto, sua imagem à primeira
vista não remete a de um campeão do pugilismo, não fossem
as obturações de ouro nos dentes da frente e as mais de cem
medalhas e 20 troféus espalhadas pela estante e paredes da
sala. Ele desconversa sobre os
dias no Rio e repetidas vezes
menciona que nunca cogitou
deixar Cuba. "Já viajei muitas
vezes, nunca tentei nada disso", diz, apontando para as paredes que comprovam vitórias
em lugares como Venezuela,
França, Rússia, Austrália, Tailândia, Grécia e Reino Unido.
Sem trabalhar desde que voltou a Cuba, Rigondeaux só tem
hoje um compromisso fixo diário, a corrida de cerca de duas
horas que faz pela manhã, disciplina de quem precisa manter os 54 quilos da categoria galo e não quer desistir do esporte, mesmo há tanto tempo sem
treinar e dependente de um
perdão para voltar a fazê-lo.
Após a revolução de 1959, a
prática profissional do boxe foi
abolida em Cuba.
Longe do guarda-chuva do
Estado, o pugilismo inexiste
em Cuba e convites aceitos por
atletas para deixarem o país
são tidos como uma traição ao
regime. Durante muito tempo,
principalmente quando a ilha
era cliente da antiga União Soviética, o boxe cubano não viveu grandes desafios para manter os seus atletas no país.
Teofilo Stevenson tornou-se
um lendário peso-pesado cubano não só pelas vitórias, mas
também por ter rejeitado propostas milionárias para que se
tornasse profissional e fosse
embora de Cuba. Virou ídolo
do regime.
Mas a realidade mudou. Nos
últimos anos, cerca de 150 desportistas cubanos aproveitaram as competições no exterior
para fugir. Um exemplo do temor castrista: diante da possibilidade de novas deserções
após o episódio do Pan, Cuba
proibiu que sua equipe nacional fosse a Chicago participar
do Mundial de boxe, em outubro. Nesta mesma competição,
Yuriorkis Gamboa, desertor do
país caribenho que desenvolve
a carreira na Europa, embolsou
entre US$ 10 mil e US$ 15 mil.
Rigondeaux nega fazer parte
desta turma, mas na conversa
com a sua família fica clara a
insatisfação com o tratamento
reservado pelo regime a um
atleta que define ele mesmo como "o melhor do mundo".
"Protestar? Para quem? Temos que nos acostumar... Se
protestar, há problema", diz
Farah, diante do silêncio do
marido, e apontando para a
carcomida pintura das paredes
da casa.
Mesmo sem um passado glamouroso em Cuba, tudo o que
Rigondeaux deseja hoje é recuperá-lo. Antes do Pan, ele permitia à família uma vida sem
luxos, mas tranqüila na ilha.
O governo lhe cedeu uma casa modesta de três quartos em
área residencial de Havana, a
cerca de meia hora do centro de
treinamento de boxe.
O salário, diz ele, chegava a
450 pesos cubanos mensais
(cerca de US$ 20). Pouco, muito pouco, mas dentro da média
cubana para médicos, por
exemplo. E havia a promessa de
em breve começar a ganhar um
extra de US$ 300, uma espécie
de prêmio por já ter sido duas
vezes campeão olímpico.
Todas as sextas, buscava uma
espécie de cesta básica, com arroz, feijão, carne, galinha e outros itens, também proporcionados pelo Estado. Em Cuba,
saúde e educação são gratuitas.
Rigondeaux continua morando na mesma casa e recebendo mensalmente os 450 pesos cubanos. Mas não há sinal
da gratificação em dólar e o que
o preocupa é até quando a situação vai perdurar. "Na prática, não temos casa. Guillermo é
bicampeão e não tem uma casa", reclama Farah.
A semana é especialmente
difícil para Rigondeaux e Lara.
Enquanto eles esperam o tempo passar em Havana, os demais pugilistas cubanos estão
na província de Holguín para o
Torneio Nacional Playa Girón,
um dos mais importantes de
Cuba e tido como teste para os
atletas, às vésperas das Olimpíadas de Pequim.
"Estou assim [faz sinal de
braços cruzados]", afirma Rigondeaux, num dos raros momentos da conversa em que demonstra irritação.
Rigondeaux não tem o mesmo estilo de Lara, que, também
sem trabalho, passa as horas
em Havana circulando sobre
uma moto com adesivo da coelhinha símbolo da Playboy, usa
jeans e camisetas apertadas e
duas argolas douradas nas orelhas. Lara mora com a mulher,
Miriam, e dois filhos na casa da
mãe da sogra, uma modesta residência de dois pisos, dividida
por tios, primos, e outros familiares. Acorda às 5h todos os
dias para correr, fala ainda menos que Rigondeaux e também
continua recebendo seus 450
pesos cubanos e a cota de comida, mesmo sem treinar.
"Ser campeão olímpico é a
meta de Lara. Se não puder fazer isso, acredito que terá um
infarto", diz Miriam, que estava
grávida quando os boatos sobre
a deserção do marido chegaram
à sua casa. Segundo ela, Rigondeaux e Lara ficaram por três
dias numa espécie de casa de
hospedagem do governo de Cuba assim que voltaram do Rio.
Conversaram com autoridades,
negaram a ambição de desertar
e reafirmaram o desejo de ficar
e lutar em Cuba. Foram então,
para casa -Lara, Miriam e o pequeno Roberlandy, de 2 meses.
Enquanto os atletas estavam
no Rio, familiares de Rigondeaux e de Lara foram procurados repetidas vezes por autoridades. Negam que tenham sido pressionados, mas não escondem a apreensão que viveram.
Rigondeaux se despediu da
Folha pouco depois de mostrar
com orgulho fotos do filho
-Guillermo, cinco anos-, com
os punhos cerrados tal qual um
boxeador. "Será um novo campeão?", pergunta a reportagem.
"Se eles [o regime] deixarem...",
responde Rigondeaux, em momento franco de reação ao seu
exílio em casa, agravado pela
falta da possibilidade de recomeçar que os exilados possuem.
Álcool frustra investidores e produtores
Chamados de "heróis" por Lula na era da euforia, usineiros freiam projetos de expansão e dizem que boom do álcool não se comprovou
Produção deve continuar excedendo o consumo até 2010, diz BNDES; ao menos 25 projetos de usinas foram adiados ou reavaliados
ELVIRA LOBATO
PEDRO SOARES
DA SUCURSAL DO RIO
Ao menos no curto prazo, o
mercado do álcool frustrou os
que acreditaram nas promessas de novo eldorado verde dos
negócios. A euforia de investidores e empresários com o
crescimento do setor, iniciada
em 2006, arrefeceu com a queda nos preços do produto no
mercado interno e com as dificuldades para a exportação,
que não se abriu na velocidade
alardeada pelo governo.
Segundo informações de empresários, ao menos 25 projetos
de implantação de novas unidades industriais foram adiados ou reavaliados.
Há no país 367 usinas em
funcionamento, com a previsão
de mais 29 entrarem em operação neste ano.
As exportações de álcool caíram 14% -de 3,6 bilhões de litros em 2006 para 3,2 bilhões
de litros em 2007-, e estudo
inédito do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social) admite
possibilidade de excedente de
produção de 10% até 2010, a depender da evolução do preço da
gasolina. A partir daí, projeta
um longo ciclo de crescimento
sustentado, principalmente,
pelo mercado interno.
No auge da euforia, em 2007,
o presidente Lula chamou os
usineiros de heróis: ""Os usineiros de cana, que há dez anos
eram tidos como se fossem os
bandidos do agronegócio neste
país, estão virando heróis nacionais e mundiais, porque todo mundo está de olho no álcool", afirmou.
Os investidores acreditam no
potencial do mercado a médio e
longo prazos, mas dizem que o
setor tirou o pé do acelerador,
no curto prazo.
Pelas projeções do governo, o
consumo de álcool hidratado
vai ultrapassar o de gasolina em
2016. No ano passado, o consumo de gasolina foi três vezes
maior. A aposta no mercado interno, como força de sustentação da produção, baseia-se nos
carros flex (bicombustíveis),
que representam quase 90%
dos novos veículos.
O governo nega ter havido
otimismo demais: ""Houve excesso de declarações, mas
quem lida com o setor previa
dificuldades na exportação",
afirma o diretor do departamento de Combustíveis Renováveis do Ministério de Minas e
Energia, Ricardo Dornelles.
Desaceleração
Os sinais de desaceleração
são confirmados por vários segmentos. A Unica (União da Indústria da Cana-de-Açúcar)
mandou equipe ao campo para
apurar se os projetos com início
de produção previsto para este
ano estão confirmados ou se terá de rever a próxima safra.
""Os preços da safra 2007/
2008 caíram muito. Não remuneram nem o custo de produção. A indústria não gerou caixa
nem registrou lucro suficiente
para remunerar os investimentos", declarou o diretor-técnico
da Unica, Antonio Pádua.
Para o especialista Josias
Messias, presidente do "Jornal
Cana", de Ribeirão Preto (SP),
até 25 projetos foram adiados.
"Os adiamentos ocorrem entre grupos menores, que dependem do caixa gerado pela
atividade para financiar os investimentos. Com os preços em
baixa, ficaram sem fôlego
-25% dos novos projetos estão
nessa situação", diz Messias. O
preço médio do álcool hidratado, ao produtor, em São Paulo,
que chegou a R$ 1,25/litro em
março de 2006, estava em R$
0,71 na semana passada.
Um exemplo é o do grupo
Equipav, que reduziu o tamanho de um novo projeto em
Mato Grosso do Sul, com início
de operação previsto para 2010.
""A desaceleração está ocorrendo. O ritmo dos projetos se reduziu. Poderíamos fazer uma
safra muito grande, de 2,5 milhões de toneladas de cana, mas
vamos produzir 1,8 milhão de
tonelada", diz Newton Salim
Soares, diretor da Equipav.
""Uma boa parte dos projetos
não vai virar nada. Quantos vão
adiante? Não sei. Muita gente
sonhou com ganhos extraordinários", diz Marcelo Vieira,
presidente da Adecoagro, que
investe na construção de usinas
e da qual o investidor George
Soros é o principal acionista.
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